De nome condição





Três bilhas de grés e um avental
de trespasse
de pontas tomadas atrás com zelo
a guardá-las no regaço

assim estavas pousada ao cimo da escada
um pouco de sombra irregular
nos degraus
lagartixas repentinas e uma espada
vertida
a trespassar doce a
resignação dos vincos tisnados
rizomas afluentes
da raiz silente da raça

pelas cinco ou
pelas seis
tarde metade do dia
longe o setestrelo
as horas de malha
ou tear

dir-se-ia que meditavas
se houvesse prana ao terço
por entre os canastros da eira
ou redenção de si em chaves guardadas
em contas três
de avé – marias

a água
sabias

resguardada
fresca e de grés

Rosa
de teu nome nunca Guiomar
nem se sabia
só mais tarde que houveras tu escolhido

a flor

e é certo que a flor não nasceu
para decorar a casa, Carlos Drummond
e menos a lapela, diria eu
e uma rosa é uma rosa, William
sob qualquer natureza ainda
uma rosa
decerto

certo
e difícil

difícil lembrar-se alguém
ao certo para que nasce uma flor
ao certo para que exala fragrância
e colhe certo o relento da manhã
e o olhar de quem passa

e nem a vê se não tiver preço escrito por perto
certo
ou melhor exorbitante
dando melhor razão
de ser porventura
à rosa

ao certo
uma flor

uma rosa

sem porquê
sem mais que uma flor

uma rosa

e por mais labuta

toda a palavra
expira em nome

o som próprio
que nos sobe dos pés
em estremecimento à cabeça

indissolúvel
de lume
pois foi luz
a lhe dar corpo de nome

todavia Rosa
agora

apenas narcisos despontados no tanque do quintal
longe da pedra oblíqua e do sabão azul e do sal

dizem mais que a água lisa
que bate ali o sol e mais nada
onde batias a braço cantigas a fio
e tranças grossas de roupa branca
molhada

diferentes do teu pucho só no claro escuro
da cor enrolada sem rede sem ganchos
para se desfazer em hidra aberta na água
como a tua à noite no travesseiro calado

nunca percebi que cantavas
que tanto gosto te dava
e forças de estarrecer

a mim diziam coisas tontas
as rimas que esganiçavas
e os refrãos de tolher
mais me espantavam em ti
mulher rija fala séria sonho bem domado
ao rasar do amanhecer

a ti soltavam um pássaro

posto ao entardecer

é tarde Guiomar
e mais em mim

de ti despontam narcisos
no tanque de pedra do quintal

em mim calam-se os medronhos

e nem gota gorgoleja da bica aberta
ao portão

vazias as malgas da marmelada
abelhas zumbindo
rarefeitas nas sebes
de cedro
de ramos cheios
e desiguais

desponta a ordem da terra
desponta um caracol nas couves

despontam trilhos de intrusos
entre a horta e o estendal

contigo
nunca tal teria sido

nem espelhos de narcisos
em tanque de roupa ao sol

vai em tanto a desmesura
e nem te conto o que se diz no jornal

darias cabo de todos os lençóis e rendas
onde estejas que sem roupa te não quedas

e água fresca pulso acima em desafogo e
limpo o chão que onde se põem joelhos
se há-de poder pôr o pão

é tarde Guiomar
e mais em mim

vão-se fechando os sonhos
na lata de biscoitos de araruta

e deixaram de rolar as crianças
aros soltos no jardim ou saltar
cordas cadenciadas
roçando ligeiramente a calçada

súbito
tudo

e a noite tarda
onde ao serão se não faz nada
que acenda estrelas no céu
ou diga aos sonhos de mouras perdidas
e encantadas e sós
como tu e como eu

tu és um texto chamado óbito
e eu um número chamado NIB

libei já de quase tudo
in memoriam
salvo o fel do esquife
entregue à paz vespertina do pomar

sabe-se pouco de marés em verdes anos
e são as tâmaras frutos longínquos
a divisar chamas

sabe-se pouco
da alma
do fogo
menos que mal consome e que há ainda nas cinzas
memórias
e que é nas ínfimas partículas do átomo
o mapa inteiro e sem fronteiras
do que inscrevemos na pele
rasgando os dedos às cegonhas

vês como tenho razão

entre as cegonhas e os biscoitos
e o lençol de narcisos
prefiro copiar-te a receita do pão

só que a não deixaste como dizias

faltou-te esse último serão
e um caderno onde escrevesses
o que sempre tiveste de confiar a outra mão
destra de tinta contida entre sobrancelhas
franzidas

o nome

nem esse
to quiseram dar de direito
nem ditado nem escrito nem escorreito
nem dito
nem a preceito

isso cantarias tão alto
isso buscavas nos sons condizentes
em pregas de alma alongada
em cordas vibráteis de garganta

assinatura
desconhecida

firmada a voz livre
no ar

e todavia
quando te foste

soltou-se a sombra na eira

ouviram-se os lobos dizem
a boca cheia e meia voz

e agora
faço pão mas é mentira

ninguém mais sabe que não era assim
ao que sabia



Teresa Tudela( Portugal ), 1º Prémio, modalidade poesia.


Prémio Litterarius © 2006-7-8
adaptado por gabriela rocha martins