O sol descia por entre os ramos da alfarrobeira, acariciando-lhe os braços. A árvore sacudia-se a cada pancada de vara, renitente em oferecer-lhe os seus frutos. Agrupados em cachos negros pareciam não querer ser colhidos e lutar contra a força humana.
Pareciam frutos exóticos e imaginários a gozarem o esforço dos músculos doídos e prenhes de cansaço.
- Ó Pedro, puxa o panal, olha que estão a cair no chão - bradou-lhe a voz autoritária do pai.
Pousou a vara e puxou mais um pouco o imenso pano verde que alcatifava o solo para facilitar a apanha da alfarroba.
Eram apenas dez horas da manhã e já as cigarras começavam a sua cegarrega impaciente, anunciando um cálido dia de estio. Haviam começado o trabalho às 6h30, quando o sol ainda esfregava os olhos estremunhados.
Pedro pensou nos colegas do liceu que ainda ressonariam preguiçosamente nos lençóis macios. Depois, quando acordassem iriam talvez à praia, ou passear numa esplanada, conhecer novas raparigas, e beber imperiais…. Por momento, uma ferroada de inveja dessas vidas sem preocupações, nem responsabilidades, roeu-lhe o peito.
Estudara arduamente durante o ano inteiro e tinha concluído o 12º ano. Levantava-se todos os dias antes das seis horas para apanhar o autocarro que percorria os trinta quilómetros que separavam a aldeia perdida na serra da cidade de Silves, onde estudava. Mesmo assim era uma correria para não chegar atrasado às aulas das oito e meia. Por vezes, ao avistar as paredes brancas do liceu, já a campainha soara, indiferente: na sala de aula, os colegas pareciam ainda adormecidos, muitos de cabelo molhado e a cheirar ao gel de banho acabado de usar.
Sentia-se um autêntico extraterrestre ao entrar, envolvido pelo suor, ofegante e morto de cansaço. Inicialmente, recebia repreensões dos professores e era troçado pelos colegas. No entanto, depois pareciam ter-se habituado, limitando-se a mostrar indiferença, ou a olhá-lo com curiosidade, como se contempla um animal raro, insólito.
Apesar do abismo existente entre ele e os outros jovens da turma, adorava a escola. Bebia cada palavra proferida pelos professores e no início as suas excelentes notas causaram um estrondoso espanto. Por isso, conseguiu conquistar o respeito dos outros. Em português, sobretudo, era admirado pelos textos que parecia gerar com uma facilidade extraordinária, como se lhe brotassem das profundezas da alma. Queria ser escritor, produzir algo de grandioso, embora tivesse optado por uma área científica, visto também sonhar com um curso de medicina. Frequentemente escrevia as composições dos outros alunos. Não compreendiam metade do que depois liam atrapalhadamente na aula. Pertenciam a outro mundo: a vida deles era fácil, tudo o que desejavam lhes caía milagrosamente nas mãos, como as primeiras chuvas de Outono.
Tinham em casa Internet, computadores com inúmeros jogos, TV Cabo no quarto. Os pais exerciam uma única função na vida: servi-los. No entanto, às vezes pareciam Infelizes, revoltados, sem rumo... Pedro não percebia isso. Em sua casa existia apenas uma velha televisão a preto e branco, computador nem pensar. Os trabalhos eram feitos à mão e ter luz eléctrica já era quase um milagre, pois recordava bem o tempo em que nem isso havia. Os livros da biblioteca municipal eram o seu refúgio, proporcionando-lhe mundos e vidas diferentes, renovadas em cada dia.
Regressava por volta das sete e meia a casa, sem ânimo, esgotado com os trabalhos que o ocupariam, certas vezes, até à uma de manhã, se não tivesse de ajudar nas tarefas domésticas.
Os pais viviam exclusivamente do que a terra dava. Contudo, naquele solo agreste, tudo se extraia do ventre da terra através de partos difíceis, a ferro e suor.
Pensava muito no irmão mais velho. Talvez se ele ainda estivesse vivo a sua vida fosse diferente. Talvez sentisse menos aquela solidão e incompreensão dilacerantes que às vezes o asfixiavam, impedindo-o de respirar talvez…?
Muitas vezes o via em sonhos. Gonçalo estudara até ao 6º ano, não queria nada com livros. Gostava de trabalhar no campo e tinha a esperança de mais tarde ou mais cedo conseguir ter um negociozito. Guardava intacta a imagem do sorriso dele, no tractor que adorava conduzir, na flor dos seus dezassete anos, quando Pedro tinha apenas oito.
Tudo acontecera numa manhã de Novembro, com o céu cinzento a prometer chuva. Gonçalo ia lavrar um terreno para semear algum trigo. Desde que o pai comprara o tractor não via mais nada…
Nem queria comer. Guardara uma garrafa de água e uma sandes de queijo que a mãe lhe fizera, para quando tivesse fome.
Pedro veio à janela do quarto, despertado pelo motor do tractor e viu-o partir. Ignorava que não o voltaria a ver, apesar de uma dor estranha que lhe apertava o peito.
Quando chegou a hora de almoço, esperaram-no em silêncio os três, sentados à mesa, enquanto a sopa fumegava e a fome remexia os estômagos. O ar estava pesado, numa iminência de trovoada contida e a serra silenciosa.
Até que o pai impaciente se levantou e tomou rumo do terreno que estava a ser lavrado.
Contudo mal saiu de casa, a má notícia assaltou-o imediatamente.
A vizinha Gertrudes sem fôlego e num pranto soluçado, gritava que tinha acontecido uma desgraça: o tractor estava virado e debaixo jazia o corpo esmagado do Gonçalo.
Os dias seguintes foram de lágrimas e pesadelos. Mesmo agora passados dez anos, parece que a tristeza veio definitivamente para ficar habitando para sempre aquela casa, aquela família.
Pedro não tinha uma ligação muito profunda com o irmão, devido à sua ainda tenra idade e aos nove anos que os separavam. Sempre o vira como mais um adulto, alguém que mandava nele, à semelhança dos pais e que com frequência lhe estragava as brincadeiras. No entanto, o vazio deixado pela sua ausência era algo intoleravelmente doloroso.
A partir daí, disse adeus à infância e cresceu rapidamente, sendo obrigado a assumir algumas das responsabilidades e tarefas que cabiam ao irmão.
O que mais o magoava era sentir que o irmão fora o filho preferido, aquele que corresponderia inteiramente às aspirações da família
Ele saíra completamente diferente com aquela mania louca dos livros e das escritas.
Afinal de que servia isso ali? Ainda se morasse na cidade, se fosse menino de família endinheirada que pudesse estudar…
Por inúmeras vezes desejava ter sido ele a perder a vida. Também os pais pertenciam a outro mundo, cuja incomunicabilidade era evidente. Ele vivia continuadamente num limbo suspenso entre dois mundos. Por isso, pensava que só um acto heróico o poderia libertar desse mundo intermédio de solidão e ansiedade…
Entre ramos da alfarrobeira, os raios de sol pareciam desenhar o rosto de Marisa. Os caracóis loiros emaranhavam-se nas folhas… Mas uma advertência do pai quebrava todo o encanto: fora ela a sua última e intensa paixão. Um amor platónico e frustrado, marcado pela humilhação da recusa. Ela ia de férias para o sul de Espanha e não queria compromissos, além disso, ele não a atraía, parecia-lhe estranho e antiquado. Sofreu em silêncio, desabafando com o ribeiro, as árvores e as pedras. Era um romântico além do tempo.
- Vá lá rapaz, dá aqui uma ajuda, que esta é a última.
Faltava apenas atar as sacas de serrapilheira e colocá-las no pequeno atrelado do tractor. O estômago já começava a pedir o almoço. Como sucedia, geralmente, o pai levava o carregamento e ele ia a pé pelos atalhos. Nunca quisera sequer que o filho experimentasse conduzir o veículo, provavelmente devido ao terrível acidente que vitimara Gonçalo.
O rapaz esperou que o pai desaparecesse no horizonte para se pôr a caminho. Gostava de observar todas as transformações ocorridas nos atalhos: os carris de formigas, um ninho no arbusto, uma madressilva que floria. Não tinha pressa e sentia-se bem naqueles momentos de solidão genuína e de comunhão com a natureza.
De súbito, invadiu-o um forte cheiro de mato queimado: uma cortina de fumo erguia-se no ar, devorando o aglomerado de casa da aldeia. Começou a correr desenfreadamente. Parou e subiu a um penedo, quando já estava muito perto de casa.
O pânico instalara-se. Os bombeiros evacuaram o sítio. Viu os pais serem levados à força para dentro de um jipe. Petrificado, sentiu-se incapaz de qualquer movimento. Só quando o ruído do motor do carro se perdeu nos montes e viu que estava só, num local envolvido pelas chamas, reagiu. Era necessário salvar quatro cabras, o burro e o porco … havia também o Guadiana, o cão , mas esse, os pais tinham conseguido levar com eles.
Libertou os animais, molhou-os e conseguiu conduzi-los para a outra ponta da serra, onde a vegetação ainda se encontrava verdejante. Lá ficaram, tão assustados que nem ousaram fugir.
Depois abriu de novo as torneiras e ligou as mangueiras. Regou abundantemente a casa e o quintal, enquanto as chamas galgavam as árvores numa voracidade alucinante cada vez mais perto…. Estava consciente da desigualdade daquela luta. Era apenas um homem a tentar desafiar a fúria da natureza – ateada por mão criminosa e vencê-la.
Sabia que poderia morrer, mas tal não o demovia. Era a sua oportunidade de fazer algo heróico. Preferia assistir ao desespero dos pais por verem completamente perdida a casa e o sustento, o fruto de uma vida inteira de trabalho e sacrifício. Além disso, para que lhe servia estar vivo? Sonhava ir para a faculdade, e ser médico e escritor como aquele que tanto admirava, o Miguel Torga. Porém, sabia que isso era impossível, pois a família não tinha possibilidades.
Por outro lado, ir para longe e arranjar um emprego também não era fácil. não passava de um inadaptado, jamais encontraria alguém com quem partilhar o seu mundo. Já que não podia salvar vidas, exercendo medicina, ao menos salvaria a razão de viver da família. Ecoavam-lhe ainda nos ouvidos os gritos da mãe, ao ser levada à força…
O calor tornara-se insuportável. Protegeu o rosto com um lenço molhado, mas o fumo sufocava-o e respirar convertia-se num acto doloroso. Evitava tossir, pois as forças queriam abandoná-lo.
Naquele momento o fogo contornava a casa, detendo-se perante as paredes e o telhado encharcados. Parecia procurar desenfreadamente outro alimento, devorando alguns sobreiros. Deixou de ver e sentiu um ardor intenso que lhe percorria a pele. De repente, tombou como uma árvore abatida…
Minutos depois os bombeiros chegaram. O corpo inerte foi transportado para o hospital, mas nada havia a fazer…
Entretanto as chamas, derrotadas, haviam-se afastado e enveredavam pela serra na direcção contrária, alimentando-se de estevas e moitas. A casa permanecia alva e intacta e os animais vagueavam pelo quintal espavoridos.
Na manhã seguinte, todos o choraram. Os jornais consagraram-lhe várias páginas e as televisões falaram dele. O suicida inconsciente ou o Herói? Na morte cumprira-se a vida.
Dora Gago (Portugal), 1º prémio ex-aequo, na modalidade conto.
Pareciam frutos exóticos e imaginários a gozarem o esforço dos músculos doídos e prenhes de cansaço.
- Ó Pedro, puxa o panal, olha que estão a cair no chão - bradou-lhe a voz autoritária do pai.
Pousou a vara e puxou mais um pouco o imenso pano verde que alcatifava o solo para facilitar a apanha da alfarroba.
Eram apenas dez horas da manhã e já as cigarras começavam a sua cegarrega impaciente, anunciando um cálido dia de estio. Haviam começado o trabalho às 6h30, quando o sol ainda esfregava os olhos estremunhados.
Pedro pensou nos colegas do liceu que ainda ressonariam preguiçosamente nos lençóis macios. Depois, quando acordassem iriam talvez à praia, ou passear numa esplanada, conhecer novas raparigas, e beber imperiais…. Por momento, uma ferroada de inveja dessas vidas sem preocupações, nem responsabilidades, roeu-lhe o peito.
Estudara arduamente durante o ano inteiro e tinha concluído o 12º ano. Levantava-se todos os dias antes das seis horas para apanhar o autocarro que percorria os trinta quilómetros que separavam a aldeia perdida na serra da cidade de Silves, onde estudava. Mesmo assim era uma correria para não chegar atrasado às aulas das oito e meia. Por vezes, ao avistar as paredes brancas do liceu, já a campainha soara, indiferente: na sala de aula, os colegas pareciam ainda adormecidos, muitos de cabelo molhado e a cheirar ao gel de banho acabado de usar.
Sentia-se um autêntico extraterrestre ao entrar, envolvido pelo suor, ofegante e morto de cansaço. Inicialmente, recebia repreensões dos professores e era troçado pelos colegas. No entanto, depois pareciam ter-se habituado, limitando-se a mostrar indiferença, ou a olhá-lo com curiosidade, como se contempla um animal raro, insólito.
Apesar do abismo existente entre ele e os outros jovens da turma, adorava a escola. Bebia cada palavra proferida pelos professores e no início as suas excelentes notas causaram um estrondoso espanto. Por isso, conseguiu conquistar o respeito dos outros. Em português, sobretudo, era admirado pelos textos que parecia gerar com uma facilidade extraordinária, como se lhe brotassem das profundezas da alma. Queria ser escritor, produzir algo de grandioso, embora tivesse optado por uma área científica, visto também sonhar com um curso de medicina. Frequentemente escrevia as composições dos outros alunos. Não compreendiam metade do que depois liam atrapalhadamente na aula. Pertenciam a outro mundo: a vida deles era fácil, tudo o que desejavam lhes caía milagrosamente nas mãos, como as primeiras chuvas de Outono.
Tinham em casa Internet, computadores com inúmeros jogos, TV Cabo no quarto. Os pais exerciam uma única função na vida: servi-los. No entanto, às vezes pareciam Infelizes, revoltados, sem rumo... Pedro não percebia isso. Em sua casa existia apenas uma velha televisão a preto e branco, computador nem pensar. Os trabalhos eram feitos à mão e ter luz eléctrica já era quase um milagre, pois recordava bem o tempo em que nem isso havia. Os livros da biblioteca municipal eram o seu refúgio, proporcionando-lhe mundos e vidas diferentes, renovadas em cada dia.
Regressava por volta das sete e meia a casa, sem ânimo, esgotado com os trabalhos que o ocupariam, certas vezes, até à uma de manhã, se não tivesse de ajudar nas tarefas domésticas.
Os pais viviam exclusivamente do que a terra dava. Contudo, naquele solo agreste, tudo se extraia do ventre da terra através de partos difíceis, a ferro e suor.
Pensava muito no irmão mais velho. Talvez se ele ainda estivesse vivo a sua vida fosse diferente. Talvez sentisse menos aquela solidão e incompreensão dilacerantes que às vezes o asfixiavam, impedindo-o de respirar talvez…?
Muitas vezes o via em sonhos. Gonçalo estudara até ao 6º ano, não queria nada com livros. Gostava de trabalhar no campo e tinha a esperança de mais tarde ou mais cedo conseguir ter um negociozito. Guardava intacta a imagem do sorriso dele, no tractor que adorava conduzir, na flor dos seus dezassete anos, quando Pedro tinha apenas oito.
Tudo acontecera numa manhã de Novembro, com o céu cinzento a prometer chuva. Gonçalo ia lavrar um terreno para semear algum trigo. Desde que o pai comprara o tractor não via mais nada…
Nem queria comer. Guardara uma garrafa de água e uma sandes de queijo que a mãe lhe fizera, para quando tivesse fome.
Pedro veio à janela do quarto, despertado pelo motor do tractor e viu-o partir. Ignorava que não o voltaria a ver, apesar de uma dor estranha que lhe apertava o peito.
Quando chegou a hora de almoço, esperaram-no em silêncio os três, sentados à mesa, enquanto a sopa fumegava e a fome remexia os estômagos. O ar estava pesado, numa iminência de trovoada contida e a serra silenciosa.
Até que o pai impaciente se levantou e tomou rumo do terreno que estava a ser lavrado.
Contudo mal saiu de casa, a má notícia assaltou-o imediatamente.
A vizinha Gertrudes sem fôlego e num pranto soluçado, gritava que tinha acontecido uma desgraça: o tractor estava virado e debaixo jazia o corpo esmagado do Gonçalo.
Os dias seguintes foram de lágrimas e pesadelos. Mesmo agora passados dez anos, parece que a tristeza veio definitivamente para ficar habitando para sempre aquela casa, aquela família.
Pedro não tinha uma ligação muito profunda com o irmão, devido à sua ainda tenra idade e aos nove anos que os separavam. Sempre o vira como mais um adulto, alguém que mandava nele, à semelhança dos pais e que com frequência lhe estragava as brincadeiras. No entanto, o vazio deixado pela sua ausência era algo intoleravelmente doloroso.
A partir daí, disse adeus à infância e cresceu rapidamente, sendo obrigado a assumir algumas das responsabilidades e tarefas que cabiam ao irmão.
O que mais o magoava era sentir que o irmão fora o filho preferido, aquele que corresponderia inteiramente às aspirações da família
Ele saíra completamente diferente com aquela mania louca dos livros e das escritas.
Afinal de que servia isso ali? Ainda se morasse na cidade, se fosse menino de família endinheirada que pudesse estudar…
Por inúmeras vezes desejava ter sido ele a perder a vida. Também os pais pertenciam a outro mundo, cuja incomunicabilidade era evidente. Ele vivia continuadamente num limbo suspenso entre dois mundos. Por isso, pensava que só um acto heróico o poderia libertar desse mundo intermédio de solidão e ansiedade…
Entre ramos da alfarrobeira, os raios de sol pareciam desenhar o rosto de Marisa. Os caracóis loiros emaranhavam-se nas folhas… Mas uma advertência do pai quebrava todo o encanto: fora ela a sua última e intensa paixão. Um amor platónico e frustrado, marcado pela humilhação da recusa. Ela ia de férias para o sul de Espanha e não queria compromissos, além disso, ele não a atraía, parecia-lhe estranho e antiquado. Sofreu em silêncio, desabafando com o ribeiro, as árvores e as pedras. Era um romântico além do tempo.
- Vá lá rapaz, dá aqui uma ajuda, que esta é a última.
Faltava apenas atar as sacas de serrapilheira e colocá-las no pequeno atrelado do tractor. O estômago já começava a pedir o almoço. Como sucedia, geralmente, o pai levava o carregamento e ele ia a pé pelos atalhos. Nunca quisera sequer que o filho experimentasse conduzir o veículo, provavelmente devido ao terrível acidente que vitimara Gonçalo.
O rapaz esperou que o pai desaparecesse no horizonte para se pôr a caminho. Gostava de observar todas as transformações ocorridas nos atalhos: os carris de formigas, um ninho no arbusto, uma madressilva que floria. Não tinha pressa e sentia-se bem naqueles momentos de solidão genuína e de comunhão com a natureza.
De súbito, invadiu-o um forte cheiro de mato queimado: uma cortina de fumo erguia-se no ar, devorando o aglomerado de casa da aldeia. Começou a correr desenfreadamente. Parou e subiu a um penedo, quando já estava muito perto de casa.
O pânico instalara-se. Os bombeiros evacuaram o sítio. Viu os pais serem levados à força para dentro de um jipe. Petrificado, sentiu-se incapaz de qualquer movimento. Só quando o ruído do motor do carro se perdeu nos montes e viu que estava só, num local envolvido pelas chamas, reagiu. Era necessário salvar quatro cabras, o burro e o porco … havia também o Guadiana, o cão , mas esse, os pais tinham conseguido levar com eles.
Libertou os animais, molhou-os e conseguiu conduzi-los para a outra ponta da serra, onde a vegetação ainda se encontrava verdejante. Lá ficaram, tão assustados que nem ousaram fugir.
Depois abriu de novo as torneiras e ligou as mangueiras. Regou abundantemente a casa e o quintal, enquanto as chamas galgavam as árvores numa voracidade alucinante cada vez mais perto…. Estava consciente da desigualdade daquela luta. Era apenas um homem a tentar desafiar a fúria da natureza – ateada por mão criminosa e vencê-la.
Sabia que poderia morrer, mas tal não o demovia. Era a sua oportunidade de fazer algo heróico. Preferia assistir ao desespero dos pais por verem completamente perdida a casa e o sustento, o fruto de uma vida inteira de trabalho e sacrifício. Além disso, para que lhe servia estar vivo? Sonhava ir para a faculdade, e ser médico e escritor como aquele que tanto admirava, o Miguel Torga. Porém, sabia que isso era impossível, pois a família não tinha possibilidades.
Por outro lado, ir para longe e arranjar um emprego também não era fácil. não passava de um inadaptado, jamais encontraria alguém com quem partilhar o seu mundo. Já que não podia salvar vidas, exercendo medicina, ao menos salvaria a razão de viver da família. Ecoavam-lhe ainda nos ouvidos os gritos da mãe, ao ser levada à força…
O calor tornara-se insuportável. Protegeu o rosto com um lenço molhado, mas o fumo sufocava-o e respirar convertia-se num acto doloroso. Evitava tossir, pois as forças queriam abandoná-lo.
Naquele momento o fogo contornava a casa, detendo-se perante as paredes e o telhado encharcados. Parecia procurar desenfreadamente outro alimento, devorando alguns sobreiros. Deixou de ver e sentiu um ardor intenso que lhe percorria a pele. De repente, tombou como uma árvore abatida…
Minutos depois os bombeiros chegaram. O corpo inerte foi transportado para o hospital, mas nada havia a fazer…
Entretanto as chamas, derrotadas, haviam-se afastado e enveredavam pela serra na direcção contrária, alimentando-se de estevas e moitas. A casa permanecia alva e intacta e os animais vagueavam pelo quintal espavoridos.
Na manhã seguinte, todos o choraram. Os jornais consagraram-lhe várias páginas e as televisões falaram dele. O suicida inconsciente ou o Herói? Na morte cumprira-se a vida.
Dora Gago (Portugal), 1º prémio ex-aequo, na modalidade conto.