Baladas de Cristal




És o abandono límpido e sobre ti me inclino

És o abandono límpido e sobre ti me inclino,
porque o amor é uma inflorescência indizível,
sobre galáxias de alfazema.

Perscruto-te, numa errância obscura e procuro todas a metáforas
em que te possa transformar,
mas apenas as linhas se insinuam e as sombras espalham-se
pela tua avidez porosa.

O vento é a tua imagem e o ar, com a sua cabeleira volúvel,
fascina-me, como o teu rosto de olhos insones.
Amo a lua e o sol, a terra, em seu pulsar vigoroso.

Afasto a neblina inerte e perco-me em ti, porque os teus olhos
são tâmaras azuis, labirintos de música
e o mar é uma explosão exótica que vibra, galgando o corpo
e as suas margens.

A totalidade é a chave que te inventa.
És a primavera de espaços sucessivos, a rosa dúbia,
a sombra incandescente desses lugares que emergem,
íris e caos, pedra volúvel, navio versátil.

Pelo teu rosto salgado, encontro o laço da volúpia,
o corpo das brisas, neblinas, veludo, algas movediças
e um terror subterrâneo,
fonte intranquila, colmeia dulcíssima,

num vazio errante de céu e nenúfares.



Sobre Janelas Flutuantes

As gaivotas tomaram conta da praia e sobre a Artemisa apaziguada
me debruço,
escrevendo uma cósmica balada sobre o amor imperfeito.
Penso nas orquídeas subterrâneas, nas marcas do teu ser
e nas palavras, geradoras de origens.

Na transparência que me envolve, veludo é o teu corpo,
o teu sangue, cálice de giestas, voz que te enuncia.
E o vazio é existirmos, sem sermos um para o outro, o vazio
é compormos esse vazio em nós.
O vazio é sermos fluxo, movimento e, no entanto, estratégia,
ao entreabrirmo-nos um para o outro, sobre janelas flutuantes.

Na natureza redunda o tempo, o espaço, e as palavras
são marcas da tua seiva geradora.
Um movimento, um só, um único, e nada mais teríamos
que inventar
( toda a estética poderia voltar a ser convencional)
Quando a noite se desprende dos seus cálidos umbrais
e o fogo grita a vocação do sol que cria rodas, espirais.

Para ti se inclinam os turbilhões vorazes, o silêncio explícito,
uma estrela mutante, quando redundam pela luz, túmidas saxífragas,
e és, como os adoradores da penumbra que trazem,
em si, as rosas brancas da alegria.

Para ti se inclinam as cigarras negras, os fluidos alfabetos
da tua natureza íngreme, solar de verdes turbilhões
e espaços lunares.
Há um sortilégio de espuma, deixado no mar, pela Deusa.
Cíprea e os cometas diluem-se, no teu corpo, dilatando
a sua sombra voluptuosa,
instalando, na sua mecânica subversiva, a palavra, o gesto,
o desejo de ti.

Para ti recolho a música, e os dias desenvolvem-se
na sua pragmática lenta,
os cometas envolvem-me, porque é junto de ti que me construo.
Em ti vislumbro as planícies fulvas, o corpo do mar,
a irrigação das estrelas.
É pelo teu olhar que me travessas, com os teus laivos
de flores e as tuas chamas de lanças movediças.

Junto de ti construo-me, numa casa itinerante,
abrigo de oiro, no sabor claro de um lugar perene,
que oscila, sob ramos de um vento ébrio, lucilante.
Sobre ti se instala o vento, o seu fulgor, a sua marca incessante.

Nas vagas do mar, nos turbilhões da luz é que me afundo,
e os pássaros cantam em ti a canção da noite.
Sobre ti escrevo a neve, o sol, o gelo, os seus degraus flutuantes,
no teu corpo, no corpo da palavra, vertigem errante,

pátria de nuvens, que a luz enuncia.



As Redes Dulcíssimas

O amor. As poderosas reminiscências. Sob buganvílias leves,
as redes dulcíssimas, as brisas ardentes.
Por debaixo das varandas, o aroma do mar, o som do cravo
reaviva o peito que se fecha, esmaga, se o ser amado tem a cor
de um verso, se, no seu olhar se espelha a névoa, o fulgor,
a transparência dos dias exactos.
É tanto mais perigoso se o seu perfil possui aroma
das musas irreais, se na sua face se espalha a paixão
de uma ária de Puccini,
se os seus olhos tornam as horas lentas, wagnerianas,
e, se no seu peito de espuma, o mar se estende
e as liras implodem.

Algures, sob os céus da Acrópole, as estrelas apressam
o seu brilho, o amor a sua sombra.
No clamor de estátuas quebradas, procuro o vinho de todas
as ânforas perdidas, disserto sobre a noite narrativa,
penso em Atena, um verso de ouro, em seus olhos,
enquanto o tempo, fixando as suas volutas,
filtra a rósea carne, o rasurado mármore.

Nas fímbrias do céu, desdobrado, em seu manto dourado,
vislumbro a tormentosa deusa Cípria;
algures, sob os castelos de música, nos ecos mediterrânicos
da Arrábida, espalha-se uma brisa doce, um vinho suavíssimo,
quando, artesão do fogo e das promessas,
como um fauno me espreita, as uvas precipitam-se
e a Grécia é uma romã esplêndida, onde as flores de névoa
se consumam, entre areias leves, buganvílias soltas,

violetas vibrantes, flores de noz-moscada.



As algas, as flores e os ditirambos

As algas, as flores e os ditirambos, tudo respirava,
o céu era uma cabeleira doce.
Pensava nos elefantes de Aníbal, nas razões para as coisas,
nas razões de existir, na razão sem razões, na razão dos acasos,
quando a noite sufocava, em suas constelações opacas,
e vagueava, por entre os livros e as acendalhas.

Na plenitude dos relâmpagos, um frémito de luz acendia
a minha alma louca, a minha alma leve
e os pássaros distendiam-se.
Sobre construções sombrias, o pólen insinuava-se,
e os lírios eram a razão para as coisas, a razão do silêncio,
a razão sem razões.

Nas acendalhas de cinza, os pássaros mortos fluíam,
por entre o corpo vertiginoso e os narcisos leves.
Uma luta interior desdobrava-se;
Aquiles e Heitor dançavam, sobre a sua cintura de morte
Depois Livy* descrevia Aníbal, juntando as forças lentas,
junto à rota de Hércules Tireu, em Gades.
E a lua pesada entrava.
Por um momento, parava a razão para as coisas,
a razão de existir, a razão dos acasos.
O coração explodia.
Pela alma vazia, havia doces clamores escutava
Sergiu Celibadache dirigindo Richard Strauss
( Tod und Verklärung**)

As roseiras inundavam-me.
Aníbal desbravava os Alpes e os elefantes eram leves,
junto aos lírios enlaçados, Atena nobilíssima.

Com as mãos abertas, as lágrimas inundavam-me,
as guerras míticas terminavam, as fontes clarividentes
brilhavam, as rosas e o açafrão nasciam,
as violetas articulavam a luz, o orvalho,
e os cavalos galopavam, voavam como Pégaso,
junto aos centauros brutais que outrora guardavam
as fontes de Castália.

___________________________
* Historiador das Guerras Púnicas
**Morte e transfiguração



As redomas do Mundo

Os dias disparavam a lua, a escuridão,
a flor da existência,
as redomas diluíam-se.
A noite sufocava, em suas constelações opacas,
entre uma ária de Massenet, um adágio
de Mozart.
Os dias eram lúcidos.

Sob veias nocturnas, os nós construíam-se.
Num incêndio imperceptível, a noite,
as redomas da lua,
o peito dilatava-se, o mundo aquietava-se,
sobre as brisas doces.

E o silêncio disparava sobre mim
a flor vazia.



Sob a lua verde de espuma

Sob a lua verde de espuma, respiravam
as musas, a música, o hálito das estrelas.
O coração emancipava-se.
De nós. Para nós
a espera galgava lentamente ínfimos
degraus.

A imensidão do mar articulava o silêncio,
a voz.
Por entre as súplicas e o silêncio,
os limões dourados transformavam
a sede e a frescura,
os dias côncavos,

no fulgor dos dias transbordantes.



Algures, na diástole nocturna

Rigorosamente, as papoilas nada dizem,
ou falam da vertigem, nesse limiar onde tudo é possível,
na bruma sedenta onde os poetas inventam a noite,
a volúpia, a alquimia das brisas leves,
segregando, algures, na diástole nocturna,
o corpo cheio de azul, o corpo segredo.

Rigorosamente, nada existe ou tudo se supera,
entre substâncias magmáticas, substâncias frias,
e recordações de linfa, mar, pólen e neblina,
que moldam a névoa e as chamas, junto aos campos,
onde o trigo deixa de nascer.

Rigorosamente, nada existe, mas sei que existes ainda,
como um ópio poderoso recordo-te,
porque o peito era o sítio onde costumavam
adormecer os violinos, em surdina,
e, em ti, escutando ainda, a lua, dois madrigais,
as tuas pérolas.
Quando um barco silencioso assoma, no horizonte,
sulcando o mar dolente,
recordo ainda as tardes que passávamos,
à luz de Tasso, Goethe, recordações

ou poemas de Jánis Ritsos.



Baladas de Cristal

Também os desertos me sufocavam.
por isso, as árvores luminosas se abriam,
na ternura dos teus braços.

Só eu sabia que ele era o mercado dos duendes,
o mercado dos frutos, o mercado dos novelos.
Todos aqueles frutos eram proibidos,
como os teus lábios, feitos de cedros, topázios,
saborosos dilemas, poemas de Paul Valéry,
ou harmonias róseas, como as que Picasso
haveria de distorcer, em Avignon.

Teria evitado esse tempo, mercado ávido de seiva
e de duendes,
entre baladas de cristal que só eu via,
nos cumes de pedra, nos átrios de sombra,
nas metamorfoses da morte,
num frémito unguérissable que só eu sabia.

Teria evitado esse tempo, ou tudo teria vivido,
fruindo o teu nome, escrito na fidelidade de uma ilha,
coberta de perfumes suaves,

de magnólias, céu e ametistas.


Maria do Sameiro Pereira Reis Barroso ( Portugal ), menção honrosa, na modalidade poesia.

Prémio Litterarius © 2006-7-8
adaptado por gabriela rocha martins