Que fim poderia ser mais devotadamente desejado?
Morrer… Dormir! … Talvez sonhar! Sim, eis aí a dificuldade !
Hamlet , ato segundo . W.S
Gustavo era grande o suficiente para ir à padaria sozinho e cortar o seu próprio bife. As férias de verão chegavam ao fim e ele estava louco para aprender a leitura de palavras inteiras.
O primeiro dia de aula é o segundo melhor dia do ano. O melhor dos melhores é o primeiro dia das férias. Bons igualmente em sensações e curiosidades.
Naquela madrugada, Gustavo acordou com o barulho da chuva.
Era mais uma simples tempestade, a casa começou a tremer e ele logo imaginou uma manada desgovernada de búfalos atravessando os céus aos galopes em busca de água. A cor de néon de cada relâmpago transformava em fotos negativas os móveis do quarto.
Com essa barulheira toda, ninguém vai me ouvir se eu chamar, pensou. Puxou o lençol, aninhou-se, cobriu a cabeça e tremeu.
De repente um som muito maior rasgou o espaço, um baque surdo no quintal. Será o quê o estrondo, apavorou-se o garoto. Dormiu encolhido, paralisado, suado. Dormiu de cansado que estava.
De manhã cedinho, ansioso, abriu vagarosamente as janelas. No costumeiro lugar do Ipê amarelo, algo desconhecido. Sua respiração estancou e a voz sumiu como às vezes costumam sumir os gatos.
Rebuliço na cabeça, bulha no peito. Papai, Mamãe, corram aqui, venham ver, grita Gustavo. Esqueceu-se completamente de que o pai tinha ido viajar e só voltaria no final do mês. Ao ouvir os gritos, a mãe vem ao seu encontro e o vê debruçado na janela. Aproxima-se devagar, não quer assustá-lo mais ainda e surpreende-se com o que está lá fora.
Um pedaço de azul. Um pedaço de céu. Um céu repousado, se acomodando entre a mangueira e a jabuticabeira, caído pertinho deles, do tamanho justo deste quintal. Um pedaço de céu lindo, desanuviado, sem estrias de frio nem prenúncios de calor. E os dois na casa e a casa palco de algo incomum.
Gustavo agarra-se ao pijama da mãe, que o abraça fortemente.
Vamos descer Gustavo, do quintal poderemos ver melhor o que é que desabou aqui. É bom tomar cuidadinho, é bom ter cautela, fala mamãe enquanto descem as escadas.
O jardim totalmente azulado, com algumas nesgas brancas ou transparentes. Lá no alto do céu do firmamento, um pequeno buraco, escuro, que nunca esteve ali.
Nunca soube de ninguém que tenha visto um pedaço de céu sem céu. Foram os raios, Guto, devem ter se cruzado com tanta violência que quebraram este pedaço, diz a mãe.
Mamãe, se isto está acontecendo de verdade acho que é tudo o que eu nunca nem pensei pedir a Deus, diz Gustavo, já tentando se soltar das mãos maternas. A mãe encostada na parede vai escorregando até sentar-se e Gustavo vai junto, um pouco no colo, um pouco no chão, um muito não se sabe aonde. A gata vem lá do fundo do quintal, de dentro do azul, ressabiada, pula no colo da mãe com um miado de estou aqui.
Gustavo diz, se a gata estava lá dentro e saiu toda bem , é sinal de que podemos entrar também, e antes que a mãe pudesse esboçar atitude ele entra no azul. A gata dá um salto quando a mãe se levanta para seguir o menino. Ela diz ao filho, alumbramento, isto é o verdadeiro alumbramento.
Aquele pedaço de céu veio em nu estelar, então, assim que o sol enfraqueceu, Guto e a mãe voltaram para casa, tranquilos, felizes, deslizando no sereno. Esta noite, a primeira noite depois do céu cair em sua casa, foi a primeira melhor noite de todas as noites. Mãe e filho rezaram juntos, ela acomodou o filho na cama, beijou sua testa, durma bem meu anjinho.
Não posso descrever meu céu, como falar em algo que não existe, como pensar em algo inimaginável. Como dormir pensando, melhor pensar amanhã , acordado, as coisas do céu devem ser assim mesmo, Gustavo pensava, tentava dormir, tentava pensar.
Manhã seguinte a do melhor dia da melhor noite, Gustavo pulou da sua janela diretamente para o pomar azulado. Aprendeu a voar, a nadar no anil. Às vezes se estirava entre um canto e outro de alguma nuvem desavisada, e olhava aquele outro céu banguela.
Quando papai chegar ele não vai acreditar mamãe, isto aqui é melhor do que sorvete de manga, calda de caramelo e balas de goma, é bom de ver de comer e de pegar, ria o Guto, sabendo que em casa havia um pedaço de paraíso só para eles.
Outra manhã, mamãe acordou com olheiras profundas, justamente na melhor de todas as semanas. Estava quieta, falando baixinho, pediu para papai voltar mais cedo, segredou com a avó por telefone.
Você não vem mais comigo mamãe, perguntou o insatisfeito filho. Querido, não estou muito bem, dor de cabeça, enjoo, talvez tenha pulado muito no outro dia, vá, vá você. Ele foi, sorveteu-se. O pai chegou nesse mesmo dia. Alegria para o menino, mas o pai tinha que ficar com a mamãe na maior parte do tempo.
Chegou um dia em que a mãe não quis mais se levantar. Guto ia até ao quarto, dava um beijinho em seu rosto e corria o seu dentro e fora. Estava tão entretido de céu que não percebeu a mãe a definhar. Ela foi sumindo aos poucos, mais um pouco todo o dia. Já estava muito pequenina quando papai falou para Guto que ela estava doente.
Gustavo sentou-se ao lado da mãe. Para mim, isso é mais impossível do que ter nosso parque celeste, você não pode estar doente, nós temos nosso céu, lembra, perguntou aflito o filho.
A mãe sorriu, passou as pequenas mãos no rosto do menino. Neste dia ele viu o quanto que ela estava menor do que ele. Mamãe, será que cresci isso tudo, perguntou.
Sim, meu homenzinho, você cresceu mesmo. Sua voz era muito menor do que ela, um fiapo, um suspiro, um quase nada.
O menino foi para o quintal sem nenhuma vontade de entrar no azul. O pai foi ter com ele. Está na hora de mamãe ir para o céu, disse o pai.
Ora papai, é só trazê-la aqui fora, eu cuido, nós cuidamos muito bem dela, podemos ficar juntos no nosso mundinho de céu, reage Guto.
Do céu caolho, daquele outro céu que papai estava falando, ele não quis mais nem saber. Melhor ficar mergulhado no azul. Passou a comer nuvens, beber orvalho. Seu pai começou a ficar abatido também.
Um dia o pai pegou Gustavo nos braços, abraçaram-se e choraram juntos.
O menino nunca viu o pai chorar, aquela era a primeira vez.
E esta foi a pior semana de todas as semanas piores da vida de Gustavo, desde agora até sempre.
No outro dia, pela janela ele viu. O azul começou a escurecer. Foi ficando preto, intenso, vigoroso.
O pai foi até seu quarto, precisavam também recolher e cuidar de suas almas, ampará-las, abraçados, silenciosos assim.
Gustavo entendeu que a mãe estava indo embora para não mais voltar. Ele não a viu entrar em cinza, não quis ver, melhor lembrá-la no arco-íris.
Veio a chuva novamente. Raios, trovões, tudo na terra se descompondo. O que era firme começou a transformar-se. O aguaceiro atravessou a casa, inundou as ruas, as avenidas marginais e interrompeu o tráfego durante dias, os rios transbordaram. É o dilúvio disseram.
As águas foram tão violentas que fez-se mar o sertão de asfalto. Houve um apagão geral em vários lugares do país, coisa vultosa. Dias sem energia, confusão nos centros comerciais, escolas paralisadas, caos. Os técnicos disseram que foi um raio na usina. Alguns refutaram essa ideia.
Naquele que foi o pior dos piores dias de todos os dias de todas as piores semanas piores de sua vida, Gustavo sabe muito bem o que aconteceu.
May Parreira e Ferreira ( Brasil ), menção honrosa, modalidade conto.