Com o galão e a meia torrada nas mãos, a professora Laura olhou à sua volta. Era o intervalo grande. O bar da escola estava a abarrotar. A um canto, avistou uma mesa a que só estavam quatro dos seus alunos de 8º ano. Dirigiu-se para lá e perguntou : “Posso?” “ Claro Setôra”.
Um dos rapazes foi buscar mais uma cadeira e lá se arrumaram os cinco. Para ela, era a primeira refeição do dia : às 8 apenas comera uma maçã, lavada a correr e comida a conduzir. Por entre um golo e uma dentada, reparou que os dois parzinhos se exibiam ostensivamente como tal: dedos entrelaçados e um hipotético endireitar um cabelo para o colocar no seu hipotético devido lugar.
Teriam uns 14, 15 anos. Na semana anterior os namorados eram outros. E a professora lançou um irónico: “ Ora, ora então a dança das cadeiras continua?” “ Oh, pessora, tamém… “ refilou a Pêpê ( Paula Pires de seu nome).
A Professora pousou o copo, limpou os lábios com o minúsculo guardanapo e ergueu as sobrancelhas, tudo em simultâneo. Era uma interrogação muda que os alunos entenderam e a que o Rui respondeu: “ Fogo! Já é a segunda vez que a setôra fala na dança das cadeiras”. E o protesto continuou pela voz da Cláudia: “ Tamém, Setôra nós até gostamos da Setôra… mas, desculpe, acho que é um bocadinho….” “ Bota de elástico?” “ Bota quê?” perguntou o Pedro.
“ Cota, velhadas, chata” acrescentou a professora com um sorriso ainda gaiato, apesar dos sessenta e tal anos. “ E é . Desculpe, pessora mas é”, repisou a Pêpê. E de um fôlego, sai-lhe a pergunta que lhe fervilhava na cabeça “ Há algum mal em mudar de namorado?”
O rosto da professora Laura ficou repentinamente sério e respondeu “ Se calhar, não”. E, de chofre, sem reflectir, atirou: “ Quem quer ir amanhã lanchar a minha casa? Prometo que ninguém se vai arrepender”. Dito isto, assim num repente, quem já estava a arrepender-se era ela. Os miúdos estavam de olhos arregalados, tal era o espanto. Nunca nenhum professor os convidara para irem a sua casa. Diziam entre si: “ Vamos?” “ Porque não?” “ Até era capaz de ser porreiro…” “ E a música em casa do Rafa?” “ Fica para outro dia”. Bom, se não puder ser, se tiverdes algum programa especial, deixai lá. Fica para outra vez”. A campainha tocou. A professora levantou-se e os ganapos perguntaram: “ Podemos dar-lhe a resposta no intervalo a seguir?”
“ Claro”.
No intervalo seguinte lá estavam os quatro à porta da sala dos professores. "Vamos dez, Setôra”. “ Muito bem. Quase 50% da turma. Pelas quatro e meia lá vos espero”, e deu-lhes o endereço.
Perguntou, sabendo de antemão a resposta: “ Chá e torradas ?" E, vendo uns narizes torcidos: “ Sandes e sumos? “ Acenaram que sim e o Rui acrescentou: “ E cola e batatas fritas. Nós levamos “. "Não é preciso." Afastaram-se em correria, como se tivessem de andar a quinhentos à hora.
Afinal foram 12. Discutiu-se se eram 12 ou 13. Por maioria, decidiram que eram 12. Para não serem 13 à mesa, que isso dá azar. “Tolice”.E também porque a professora continuava a estar do outro lado da barreira.
A música de fundo era dos anos sessenta: Beatles, Jim Morrisson, Zeca, Adriano, jazz escolhido.
Os cachopos, se não gostaram, também não protestaram. No final do lanche, pairava no ar a pergunta: “ Que terá ela para nos dizer?” “ Ora, arrumai-vos como puderdes. Há por aí almofadas”. Acomodaram-se. Notaram-se os parzinhos, mas não muito.
Então a professora Laura preparou-se para contar.
A partir daqui a história será contada na primeira pessoa, por razões que se prendem com o curso dos acontecimentos.
- Até entrar na Faculdade nada houve de especial na minha meninice e adolescência. Era filha única e os meus pais viviam de uma pequena mercearia que, para além do arroz, do azeite, etc,
vendia um pouco de tudo
- A Setôra vai contar-nos a sua história?
- Sh ! Caluda! Era o Pedro a comandar.
- Aos 17 anos estava no 1º ano de Românicas em Coimbra. O meu pai alojou-me num lar de freiras. Muito comum nesse tempo, e muito conveniente, pelos horários rígidos que nos eram impostos e por ser razoavelmente em conta.
Ficava na Rua da Matemática, a dois passos das Faculdades e rodeado por uma data de “ Repúblicas”. Passei o meu ano de caloira do Lar para Letras e das Letras para o Lar. No 2º ano, a rotina foi a mesma, para não variar. Mas, por altura da Queima das Fitas, fui com colegas ver a garraiada à Figueira da Foz. Na estação, um estudante abanndo no ar a pasta com fitas vermelhas, portanto quartanista de Direito, gritava a plenos pulmões:” Eh malta! Aqui ninguém paga bilhete.” Parei a ver a cena e ele agarrou-me na mão e levou-me a correr para o comboio.
Não me largou até à Figueira. Claro que já estava um pouco alegre, Aliás, todos estavam, uns mais outros menos. Regressámos juntos, de mão dada. Eu nunca tinha andado de mão dada com um rapaz. Era uma sensação estranha, inesperada, intensa. Nunca a esquecerei.
Naquele tempo, após a queima, praticamente já não havia aulas. Começava a grande “ estudação”, como nós lhe chamávamos, pois os exames estavam à bica.
Eu e ele passámos a ir todas as tardes para o Jardim Botânico que ficava, por assim dizer, mesmo à mão de semear. Sentávamo-nos à sombra de um gingko biloba…
- Ginco, quê? – claro, só podia ser a Pêpê a interromper.
- … uma árvore enorme, antiquíssima, com folhas bilobadas, quase em forma de coração. Pois, sentávamo-nos aí e durante três ou quatro horas seguidas era mesmo estudação. Fazíamos então um intervalo, corríamos para esticar as pernas, apostávamos quem chegava mais depressa acolá, àquele arbusto, ele apanhava-me pelo caminho, ríamos como tolinhos, falávamos de tudo e de nada. Lembro-me com uma ternura imensa o primeiro beijo que demos. Foi um momento glorioso: uma sinfonia de acordes fantásticos, uma composição de sol e flores e pássaros e canções. O mundo era novinho em folha.
E assim se passaram os dias, os dias mais felizes da minha vida.
Uma tarde, no nosso poiso favorito, debaixo da gingko biloba, durante a pausa no estudo, ele segredou-me:” Amanhã trago-te duas rosas vermelhas que estão a desabrochar no jardim do vizinho”. Puxei-lhe uma orelha, rimos descuidadamente, em total enamoramento. E, no esquecimento de um beijo, uma voz medonha, vinda de qualquer lugar medonho, bradou: “ Que pouca vergonha é esta?” . Era a nós que aquela voz horrorosa se dirigia? Olhei e primeiro só vi uma botifarras pretas, donde se erguiam umas pernas monstruosamente altas e, lá muito em cima, a cara patibular de um homem, de chapéu preto atirado para a nuca, que voltava a rosnar:
“ Olhai-me só para esta desavergonhada”. Aturdida, percebi que a “desavergonhada” era eu. Outro homem, em tudo igual ao primeiro, apareceu do nada: “ Que se passa? Uma nojeira, como sempre. Estas putéfias emproadas…” e cuspiu para os meus pés.
Não percebi o que estes dois homens queriam de nós. Continuávamos sentados, de mão dada. O meu namorado levantou-se e perguntou: “ Quem são vocês? Que querem?” Como resposta levou imediatamente dois socos: um esmurrou-o num ouvido, o outro socou-o no estômago. Caiu encolhido contorcendo-se no chão. Apavorada quis aproximar-me dele, mas uma manápula de ferro levantou-me por um braço, enquanto uma boca disforme e repugnante cuspia impropérios “ Sua puta. Sua grandessíssima puta. Os pais descansados lá na sua vida, enquanto estas galdérias andam por aqui nestas merdas”. O outro ladrava para o meu namorado: “ Em pé, seu cabrão. Identificais-vos. Já. “ “ Deixa. Vamos levar estes filhos de uma cabra e identificá-los lá”.
Baixei-me para apanhar os meus livros, mas levei um pontapé nas mãos e os livros lá ficaram espalhados pelo chão. ( A Raquel, opressa, tocou-me nos dois dedos, que ainda hoje permanecem tortos. Lancei-lhe um olhar cheio de afecto). Os meus livros….No meio daquela cena de horror, tive pena dos meus livros. Pensei até no que alguém poderia dizer ao encontrá-los: “ Isto é que são estudantes…gastam o dinheiro dos pais e vede bem o que ligam aos livros”.
Arrastavam-nos agora para o portão do Botânico. Eu chorava que nem uma Madalena.” Ainda vais chorar mais, sua puta, sua vadia de merda”. Passou-me pela ideia que deviam estar a confundir-me com outra pessoa . O meu namorado conseguiu dizer-me, num sussurro, “Não fales. São pides.”
Estávamos em 1959. Portanto, mesmo só de ouvir falar, todos nós sabíamos que a PIDE existia. Mas eu, eu não sabia o que era a PIDE. Estava a sabê-lo do modo mais atroz.
Aqueles eram, de facto, agentes da PIDE. Enquanto nos metiam num Volkswagen azul, a que, devido à semelhança na cor, chamávamos, “caixas de creme nívea”, os enxovalhos não pararam. A viagem foi curta, pois a sede da PIDE, na Rua Antero de Quental, nem a uns escassos 200 metros ficava. Levaram-nos para salas separadas. “ Agora é que tu vais ver o que acontece a putas como tu, todas finas, a estudar na Universidade e afinal andam por aí a dar o cu”. Nunca tinha ouvido nada de tão baixo, tão sórdido. Aquela voz ressumava o mais feroz ódio pelos estudantes, melhor dizendo, pelas raparigas estudantes.
Registaram o meu nome, a residência em Coimbra, o número do B.I., nomes e residência dos pais e tiraram-me as impressões digitais. Tiraram-me também o relógio de pulso, o fio de ouro e os óculos. Deixaram-me sozinha naquela sala sem janelas, sem móveis, só uma mesa e duas cadeiras, no tecto uma lâmpada nua, de luz fortíssima. Esforcei-me por me controlar. Mas as lágrimas caiam-me quatro a quatro. Se era isso o que eles pretendiam: aterrorizar-me, enxovalhar-me, fazer-me sofrer daquela forma grosseira, torpe, mas calculadamente, programadamente, tinham-no conseguido. Eu tinha apenas 19 anos e nunca me metera em politica. Ainda não tinha estofo para suportar aqueles maus tratos, tão ignóbeis quanto gratuitos. Temi pela vida do meu namorado. Temi que continuassem a bater-lhe. Perdi a noção do tempo. Podiam ter-se passado horas ou apenas minutos.
Depois do que me pareceu uma eternidade, alguém abriu a porta, colocou os meus pertences em cima da mesa “ E agora põe-te no olho da rua, sua ordinária. Mas não penses que o caso fica por aqui”.
E o caso não ficou por ai. Passados três dias ( continuava sem notícias do meu namorado), os meus pais, inesperadamente, ou nem tanto, vieram buscar-me. Já não fiz os exames. A PIDE havia escrito uma carta que, acintosamente, enviara para o posto da GNR da minha terra. O meu pai foi chamado com urgência e a carta, já aberta e lida, foi-lhe entregue pelo sargento, seu parceiro na sueca que, com um riso escarninho, lhe disse : “ No melhor pano cai a nódoa, amigo Lopes”. Li essa carta após a morte do meu pai. Guardei-a e há mais de trinta anos que não lhe pegava.
Escutai:
“ Sr Altino Lopes ( era o meu pai)
Vimos, por esta, trazer ao seu conhecimento que, no dia 24 de Maio do corrente ano, pelas 17 horas, a sua filha Laura da Silva Lopes, foi encontrada por dois dos nossos agentes, em local recôndito do Jardim Botânico desta cidade, praticando actos indecorosos.
De V.Exª etc, etc. “
Como é de calcular, o meu pai ficou destroçado. A sua filha única, a sua menininha, apanhada em actos indecorosos. Que dor de morrer! Para além da imensa dor, era a humilhação, o vexame, porque toda a gente naquela vilinha beirã ia saber e comentar o facto.
Reagiu como seria de esperar. Primeiro acreditou piamente que a carta dizia a pura verdade.
Nem punha na ideia que alguém da polícia pudesse estar a inventar aquelas aleivosias. Em seguida, vociferou para a minha mãe ; “ Vamos buscá-la. Acabou-se o curso, acabou-se a Universidade, acabou-se a minha vida. Acabou-se tudo”. O pranto da minha mãe era de cortar a alma. Até ela coitadinha, acreditou que eu fora, realmente, apanhada em flagrante acto sexual.
Naquela altura, isso era de todo inimaginável. A infelicidade que esta maldita carta causou!
Foi assim que o meu curso foi interrompido. O meu e o de sei lá quantas outras raparigas, cujos pais receberam cartas semelhantes. Era assim que a PIDE procedia: tinha peritos em espiar, em insultar, enxovalhar. ( Mais tarde soube que também os tinha para torturar e assassinar.)
Destruíam as nossas carreiras. Achincalhavam as famílias. Ficavam vidas e famílias em frangalhos.
Foram muitas as moças que, como eu, sofreram. Mas também muitas, as mais corajosas, foram à luta. Lutaram para que vós tenhais hoje liberdade, para que possais andar de mão dada e beijar-vos em público, namorar sem temor, num doce não-cuidar…
Parei. O silêncio era opressivo, a tensão entranhava-se por todos os poros. Os traços naquela dúzia de rostos estavam mais acentuados. Em alguns olhos bailavam lágrimas.
Fiz o meu mais amplo sorriso, abri os braços e exclamei:
- É maravilhoso poder gozar de liberdade!
Porém, a professora que há em mim, acrescentou à revelia de mim:
- Mas acreditai que é difícil saber gozar a liberdade.
Podia terminar aqui a história. Nem seria um muito mau final. Mas a verdade é que não está completa.
A Pêpê – quem havia de ser - foi a primeira a recuperar o azougue e a fala. – Eu sei o que a pessora quer dizer : namoro não é a dança das cadeiras.
Se a história ficasse por aqui, também não seria fora de jeito, uma vez que acabaria por onde começou. Em muitas histórias é isso que acontece. Mas não foi assim que esta terminou. Houve perguntas.
A primeira, do Rafa, teve razão de ser:
- Então como é que a Setôra tirou o seu curso?
- Quando o meu pai, 11 anos depois, faleceu, decidi pôr fim ao meu cativeiro. Tinha trinta anos.
Peguei na minha mãe cansada e envelhecida. Vendi a pequena casa e a mercearia que já estava a falir, e vim para Coimbra. Dei aulas e explicações. Quatro anos depois, a minha mãe ainda teve a alegria de me ver formada. A minha alegria foi a dobrar porque nesse ano, 1974, deu-se a Revolução dos Cravos. Conquistámos a liberdade e a PIDE acabou.
- E o seu namorado? Nunca lhe escreveu? Nunca a procurou?
- Escreveu. Escreveu durante três anos ou mais. O meu pai queimou sempre as cartas. Ele pensava que estava a proceder bem. Quem sabia que fazia mal era a PIDE. Para essa escória é que não pode haver perdão.
- Então nunca mais soube nada dele?
- Não.
- Nunca mais namorou?
- Namorei. Mas creio que não teria dado certo.
- Porquê?
- Porque ele continua a habitar aqui e aqui – e apontei para a cabeça e para o coração.
- Setôra, como é que o seu namorado se chamava? – perguntou a Sara.
- João Bernardo. Mas ele não gostava do nome Bernardo. Então os amigos, para o arreliarem, chamavam-lhe o nome que lhe davam em pequenino: Jóbê. Claro que, já homem, também não gostava do nome menininho.
- Era o meu avô! O meu avô, Setôra: João Bernardo Faria Vaz - exclamou o Pedro, que estava sentado junto dos meus pés.
Os risos que já se esboçavam ficaram suspensos.Tal como nós. Um calafrio nos percorreu. o Pedro pôs as mãos sobre os meus joelhos, fitou-me e deitou a cabeça no meu regaço. Acariciei-lhe o cabelo alourado. Poderia ter sido o meu neto.
De rostos sérios e olhares solidários, foram saindo todos. Sei que iam mais crescidos, mais adultos, mais responsáveis. Eu tinha, definitivamente, passado para o outro lado da barreira.
Ficámos sós, o Pedro e eu. “ Ele já morreu, Setôra, No ano passado”.
E aqui estou, a colocar-lhe sobre a campa duas rosas vermelhas que nunca cheguei a receber.
Júlia Guarda Ribeiro ( Portugal ), menção honrosa, na modalidade conto.