Revoluções da Noite




UM

Justamente nesta primeira hora do dia
em que um galo se confunde
com uma bala
e o pranto com a alegria
a ave se explode em bomba
e o amor em gritaria
o passado estende-se como uma
roupa desfeita
tudo volta. Carrossel, túnel do
tempo
aqui salvam-se as sombras
as cartas no arquivo
uma velha foto mais
amarela de que o sol
da manhã.


DOIS

Espantalho aberto em pulso
e impulsos
espanta os pássaros do coração
restam apenas as asas da ilusão
e coisas desfiguradas
espantalho-solidão
carrega os livros e os desejos
como uma fonte aberta
a jorrar seu pranto
como um espantalho que
espanta a si mesmo
o canto
espanta a memória
espanta o espanto.


TRÊS

Deitado na grama na sombra
do quintal,
o livro aberto, mas o olho
cansado
transfigurado em sonho
dedo investigando o bolso: vazio.
O grito não é a profilaxia
do medo
a vaca espanta o silêncio
e as moscas com o badalo
e o rabo.


QUATRO

Longo caminho de espera,
sentado no banco, o último,
sempre esta sina maldita
de último, dando o lugar
no ônibus, no cinema
e na história,
sempre o último.
Como vencer os heróis
saltando na manhã
o cerco dos anus,
os caçadores de prêmios
e de tigres?
Como deflagrar uma revolução
apenas com as armas das unhas
e um fósforo dentro da noite
e da história?


CINCO

Não compreendia os sinais do tempo
mas o cérebro trabalhava como
uma máquina implacável
cavando o túnel, o milagre
da consolação
e das janelas, agora
abertas.
O poeta trabalhando no silêncio
da aurora e do crepúsculo
Era um grande observador do
musgo e das
lesmas,
especialista em dejetos
e detritos,
irmão das moscas e
dos gritos.


SEIS

Fazia do domingo um motim
transportando seu barril de
pólvora
no assédio da aurora
subversivo, revolucionário
cheio de cicatrizes no
calendário.
A morte deflagrada na
manhã proletária.
Esses dias de jejum
Esses dias em vão que o trem da
história move-se velozmente
Esses dias em que um homem é
todos os homens,
mais solidário que um deus
mais solidário que um nome.


SETE

Devo inventar algum aparelho para
medir o pranto?
interpor este corpo de palha
entre a fúria e
o louvor?
acender a pira da
memória,
como plástico incandescente
na ponta de uma
vara, derramando
sua lava particular
no formigueiro
(humano)?


OITO

Ou ressurgir da manhã
como um soldado escrevendo
seu diário de guerra
chutando uma cabeça como
se uma cabaça
na oquidão do tempo
Tempo oco como bambu,
mas não se faz flauta
do tempo.


NOVE

Via de regra um cavalo constrói
seu próprio caminho, isto é,
quando não domesticado,
quando não subjugado na
espora, no urro, no chicote.
Um escravo faria seu próprio caminho
se não fosse escravo e
escreveria sua história,
mas a luz compulsória
penetrava as redes do tempo
e da memória.


DEZ

A árvore pende da noite com
seus morcegos indissociáveis
Num tempo perdido, mais
para dentro, mais um recuo
e o mimetismo deste homem
na dualidade do susto.
Regressa a uma cidade feita
de ilusão e espera
feita de tijolos da memória
uma mão amiga que conduz
ao mais dentro, ao sem
volta,
conduz como trilha de fogo
e pássaros
explodindo em um sorriso.


João Elias Antunes de Oliveira ( Brasil ), menção honrosa, na modalidade poesia.



Prémio Litterarius © 2006-7-8
adaptado por gabriela rocha martins