1.
Um bairro de prédios alinhados, como se fossem sanduíches numa vitrina. O sistema de refrigeração está ligado.
O meu é de ovo, mas cheira a cabra. É do reino animal, na mesma.
A minha vizinha tem uma cabra em casa. A minha vizinha que trabalha numa horta, que fica entre dois braços compridos. Uma ilha, entre duas linhas na cidade. Dois carris. Uma cabra. A minha vizinha.
Eu tenho um cheiro que se vê. Sou um preto com orelhas de branco, orelhas de rato Mickey, um preto inventado por um americano de pele lisa.
No início, era estranho. Passava os dedos pela pele só para ver ficar vermelha, de um vermelho fugidio, que ia e não vinha. Era uma não-cor. Um preto-branco fugidio. Foi por causa dessas orelhas de preto rato branco que ganhei a alcunha de Mickey. Foi por causa dessa alcunha que criei uma colecção de cromos de preto rato branco Mickey. Tinha vários cromos, muitos cromos que saíam em pastilhas, pastilhas que davam pontos, pontos que davam cromos. Apanhava-os do chão ou davam-mos no supermercado. Tinha muitos, às dezenas, que guardava dentro dos bolsos, mesmo os repetidos.
O Rato Mickey em todas as posições, só e acompanhado, sempre preto, sempre branco. Até aprendi o nome dele, escrito em spray nas paredes.
Eu não sabia escrever por essas alturas, mas sabia o nome do Mickey. Aprendi os nomes escritos nas paredes do bairro. Todos menos o meu. Eu era único. Preto rato branco.
O bairro ficava na encosta de um vale, ao fundo havia uma ribeira, de água suja e turva, mas era só cimento, cimento das obras que havia por ali. Ao longe, erguia-se um centro comercial, construído por muitos de nós lá do bairro, mas não havia uma estrada de ligação de um sítio ao outro. A nossa estrada desembocava numa auto-estrada, a auto-estrada em todos os sítios a que não tínhamos acesso. Nós éramos um bairro de sentido único.
A vizinha trabalhava numa horta, como já disse, e tinha uma cabra em casa. A cabra cheirava mal. A cabra fazia barulho, mas eu não podia deixar de gostar da cabra. A cabra era o sustento da vizinha.
O Tó batatas fritas era uma espécie de herói no bairro. Tinha um gravador preto e grande em cima do ombro. sempre. Eles eram o prolongamento um do outro. Não existiam um sem o outro. O mesmo movimento. Um corpo. O gravador era o altifalante do Tó, a ideia do DJ.
Um dia mataram o Tó. Apareceu pendurado numa trave lá do bairro. Amanharam-no como se fosse um coelho. Ninguém o podia tirar. Ele era um símbolo. Um certo símbolo. A cabra começou a berrar. A cabra berrava cada vez mais, mas a vizinha estava fora. A vizinha trabalhava na horta, que não produzia nada. Para ela. Era um terreno não-fértil.
Passados dois dias, chegou um carro azul com homens igualmente azuis. Monocórdicos. Não falavam. Corriam pelo bairro com paus e levaram pessoas, mas não levaram o Tó, nem o que restava dele. Só um estranho podia fazê-lo. Nós não, nunca nós. Mas eles não quiseram saber.
Um dia a cabra soltou-se. A cabra saiu de casa da vizinha e andou pelo bairro. Eu tinha ido às bombas gamar pastilhas. Quando voltei encontrei a cabra em casa. A cabra em minha casa. Cheirava um bocado mal. Fazia um bocado de barulho. Tinha uns cornos grandes. Até aí tudo bem. A cabra comeu a minha caderneta. Até aí tudo mal. A cabra cheirava mal. A cabra fazia barulho. A cabra não se calava. A vizinha precisava da cabra. A cabra não dava leite, a cabra comia cromos. Os cromos eram meus. Eu matei a cabra, mas fugi dela. Fugi tanto que cheguei ao fim. Já não havia volta atrás, apenas fugir em frente.
2.
2.
Descobri um caminho do bairro para o centro comercial. Corri pela auto-estrada. Saltei para o lado de lá. Ainda tinha alguns cromos no bolso. Encontrei um homem a quem pedi um cigarro. Nunca tinha fumado um cigarro que se agarrou à garganta. À garganta, à cabeça, aos olhos. Até hoje.
Mostrei-lhe os meus cromos. O homem gostou dos cromos. Disse que também fazia colecção. Queria os meus. Eu já não os queria por isso, troquei-os. Troquei os cromos do Mickey por duas colheres de pedreiro. Não foi mau negócio. Não precisava delas, é certo, mas podia fazer algo com elas. Ao bairro não me apetecia voltar. Estava farto daquilo. A cabra berrava na minha cabeça. Cheirava mal. Não a conseguia afastar. A cabra na minha cabeça. Os cornos da cabra.
Nessa noite dormi na obra. Acordei de manhã com os empregados que chegavam. depois andei sem parar até chegar à estação. Apanhei o combóio e cheguei a uma cidade maior. À saída da estação, meti conversa com um homem que me pareceu trabalhar nas obras. Perguntei-lhe onde ficava a obra dele. Lá me disse. Fui até lá e vi muitos andaimes com aparelhos sofisticados. Troquei as colheres de pedreiro por umas botas de couro ainda boas. Calcei-as, porque as minhas já eram velhas. Tirei os atacadores das outras botas. Encontrei um vagabundo na rua a quem as ofereci a troco de um cobertor que ele levava. Ele aceitou e eu dormi de novo. Mesmo com a luz do dia, dormi no vão de uma escada. Eu, o cobertor, as botas e os atacadores que apertavam o cobertor para ninguém mo levar. Depois não tinha de comer, mas apanhei uns restos que me deram num supermercado. Comi e dormi de novo. Andei assim uns bons dias a comer na rua, dormindo enrolado ao cobertor.
Houve um dia que encontrei sítio para dormir perto de uma padaria. Era como ter ar condicionado na rua. Estava sempre quente. Nessa altura, achei por bem trocar o cobertor que era grosso e quente. Em troca recebi um casaco de cabedal, que era valioso. Veio o Verão e não precisava dele. Tornava-se até perigoso, porque toda a gente me invejava o casaco. Era um bom casaco de pele preta. Eu dormia em cartões de papelão, mas tinha um bom casaco de cabedal.
Era um bom casaco, como vos digo, por isso troquei-o por uma bicicleta. Acho que era roubada, mas não fazia mal. Era a minha viatura. Podia mover-me pela cidade. Andar e descobrir, procurar emprego. Mas não consegui. Ainda ouvia a cabra na minha cabeça. Descobri um sítio onde me lavar e voltei à padaria. Pedi emprego e deram-me. Tinha de varrer o chão e limpar as mesas da farinha, para que não se pegasse mais farinha. Era uma coisa divertida. A padaria estava toda cheia de farinha, se era uma padaria, mas eu não podia deixar que se acumulasse mais. Corria de um lado para o outro, limpando a farinha que caía. Parte do meu ordenado era pago em pão, que comia, dava e vendia. Com o dinheiro que guardei, consegui pagar um banho por semana numa casa de um tipo que alugava banhos. Comia uma refeição quente, mas ainda vivia na rua. Dormia debaixo da janela da padaria.
Um dia convidaram-me para trabalhar numa cidade perto da praia. Não tinha dinheiro para o bilhete, por isso, tive de trabalhar e poupar durante uma semana. Apanhei o combóio e lá fui eu. Na cidade da praia era tudo diferente. Era Inverno nessa altura, mas, mesmo assim, era mais quente. Arranjei emprego num bar que tinha um espelho grande de talha dourada. Conheci uma alemã e fizemos sexo uma semana. Ela engravidou, mas abortou. Não fazia mal, eu sabia que tinha tempo para voltar a ser pai. Mas a cabra berrava. Tinha uma cabra na cabeça que berrava. A cabra. A cabra, que berrava. Já não cheirava tão mal. Mas berrava. Tanto que berrava a cabra.
3.
3.
A cidade da praia começou a cheirar a cabra. Já não gostava. Trabalhei ainda mais seis meses a fazer camas, mas valeu a pena. No Inverno, havia poucas mulheres na cidade da praia, por isso, fui contratado para fazer camas e arrumar quartos. Quartos de hotel. As toalhas de rosto dobram-se em três partes, as de banho em quatro e as de rosto apenas em dois. Os lençóis alinham-se pelos vincos e as dobras condizem sempre. Umas com as outras, as de baixo com as de cima. E eu era uma dobra, uma dobra pequena no grande mundo da cidade da praia.
Fiz dinheiro, com o dinheiro comprei uma viagem. Ainda tinha a bicicleta; por isso, foi só trocá-la por uma mala de viagem, que mesmo vazia foi comigo. Era difícil imaginar que partia sem mala, ainda que a única coisa que tivesse para colocar lá dentro fosse a cabra, os gritos da cabra. A cabra que berrava e cheirava mal. Cheirava a cabra. A cabra da vizinha.
Cheguei a Londres, a cidade que me indicaram como a mais bela para um turista do trabalho como eu. Finalmente, um preto numa cidade branca com cara de preto. Era tudo igual. Não havia diferença. Finalmente respirava, mas ouvia a cabra. Ao longe, mas ouvia.
Dormia num quarto com mais quatro. O chão era de alcatifa e tinha chatos, mas eu dormia bem. Descansávamos por turnos. Cada noite, cada um de nós rodava de um sítio para o outro. A ordem estava pré-estabelecida: cama-sofá-cadeira-chão-tapete. Era bastante democrático, dividíamos tudo. Pelo sim, pelo não resolvi desfazer-me da mala. Não precisava dela. Além disso, era um risco. Podia ser roubada a qualquer momento.
Troquei a mala por uma arma. Era a fingir, mas sentia-me mais seguro. Continuava a ouvir a cabra. Quem sabe agora a conseguia matar. Já tinha com quê. Londres explodia-me nos ouvidos.
4.
4.
A casa onde vivíamos era grande, mas éramos muitos. Tantos quanto um autocarro comprido, cheio de gente que se acotovela. Dois andares. Vermelho. O bafo húmido contagia-nos.
A casa era como uma árvore, só que com muitos braços. Já para não contar os galhos. Era ilegal. Na verdade, era uma simples casa de quatro ou cinco assoalhadas, mas depressa o proprietário a transformou em 10. Era simples, bastante simples. Da cozinha nasceu um anexo para o quintal, do anexo outro e do outro, outro. Como se fossem pavilhões numa festa de jardim e nós os convidados para a festa. Sabíamos que ia começar em breve, mal chegasse o inspector.
Não vou enumerar todos os empregos que tive, porque foram muitos. Há um que tenho de referir, porque estou certo de que vão ter inveja. Durante duas semanas colava selos numa empresa, mas apenas das 3h00 às 4h00, período durante o qual a empresa precisava de alguém que colasse os selos da correspondência que era expelida de seguida. Éramos três, numa empresa muito grande, toda envidraçada. Ficávamos num corredor comprido, em pé, os três, colando os selos sincronizadamente. Também fechávamos os envelopes. Movimento perpétuo. Agarra, cola, fecha. Arruma. No fim, fumávamos um cigarro na sala de fumo. Quando não tinha dinheiro para cigarros, enfiava-me lá dentro, na mesma. Nessas alturas ficava cerca de meia hora. Fingia que lia um jornal, enquanto enchia os pulmões com o fumo dos outros. Injecção de vida, não-vida.
Depois comecei a trabalhar num dos muitos bares da cidade. Começou o vício. Por asfixia. Foi aí que conheci a Sylvie. Ela era gerente do bar. Era uma rapariga do norte de Inglaterra. Grande e enorme. Calçava o 43. Tinha pés grandes, que mediam três palmos. Medi-os eu com as minhas mãos. Era mesmo grande. Ela trabalhava ali há muito, era amiga do dono do bar, o que era porreiro. Conhecia bem a noite e as pessoas que a bebem. Bebe-se noite em Londres, como o Tamisa bebe a sujidade que as pessoas vomitam todos os dias. Quando saem do trabalho, debruçam-se no rio, vomitam tudo e depois vão-se embora. Vão ao pub beber mais. No outro dia começa tudo de novo. É um ciclo ininterrupto.
5.
5.
Eu continuava a dormir por turnos. Como não era lá muito popular, começou-me a calhar muitas vezes o tapete. No início, até não era muito chato, mas depois o tapete começou a cheirar a cabra. Tinha pêlos e tudo. Aquilo tornou-se insuportável. Por essas alturas, eu e a Sylvie já estávamos juntos, muito juntos. Por isso, mudei-me para casa dela. Comecei a trabalhar no bar dela, tornei-me gerente dela. Tomei-lhe o lugar. Mas a Sylvie tinha ratos, ratos moribundos, numa gaiola de metal. A minha cabra não se dava com os ratos dela. Ouvia a cabra berrar o dia inteiro. Quando mais via os ratos, mais me lembrava da cabra. Um dia rebentou. Estávamos a dormir. Ouvimos bater à porta. Pancadas fortes e anónimas. Trancámos a porta da frente e corremos para a das traseiras. As pancadas perseguiram-nos até lá. Os ratos subiam as paredes da gaiola descontrolados. A cabra gritava-me na cabeça. Vozes começaram a chegar do lado de fora, impondo uma ordem. Abram, abram. Ratos ratos. Cabra cabra. Voz. A pistola explodiu-me nos dedos. Os polícias caíram do lado de lá da porta. A cabra morreu na minha cabeça.
Ana Mendes ( Portugal ), modalidade Conto, menção honrosa.
Ana Mendes ( Portugal ), modalidade Conto, menção honrosa.