Fénix
I.
.é pela saliva que os oráculos se esboçam
nas madressilvas de infinitos pátios
despenham-se pássaros perfumados
e as palavras vivem em amado sangue púrpura
e cervicais vertiginosamente alimentadas.
como os poetas coronariamente
ajoelham em argilas cirstalinas
dobrados pela noite dentro inata de cânticos frios e marinheiros
o diabo é natalício e bebe as espigas em grito
em pórticos destruídos e gritos de gansos pela cabeça.
um areal obsessivo
e um crepúsculo imaculado
e taças de veneno divinas
para algodoar o corpo antes que imensas vozes bebam em corcel
os maxilares rompem rosados
em gerações de quadrúpedes e guerreiros disformes
crateras e cordilheiras
e o cérebro é um miolo de respiração infinitamente breve.
os meus pulsos ausentam-se
os livros antigos ao amanhecer violeta
definem alabardas azuis-líquidas
e barcos regressados das sepulturas âmbares
quero as sementes mais rugosas em aquários atlânticos eternos
e fotografar a língua com acrobatas
sangrar os ouvidos em vestes douradas
e ter a idade do besouro.
II.
o céu é a antiga pálida face das águas
a distribuição de tendões por límpidos arquipélagos.
fossemos ímpares cílios
e atingiríamos o grito dos mortos rosaceamente em precipício.
em fôlego vos digo que todas as mesas postas no Verão
têm a graça do silêncio e um vagar cardíaco
e vazam Deus em faróis
arquejam de cor pela idade dos minerais
quero um alaúde para quando escarpar víboras em frente à noite
festividades nas tripas e as mãos salgadas
e uma espada
as orelhas estampam por dentro as mães
de uma trepadeira intacta sossegada em túmulo.
dancei nos rios milagreiros do barro os rins
e os cegos habitaram-me entre as cruas fibras carnais
e uma seda fluvial flutuou num silêncio todo branco.
III.
o Verão nutre uma Fénix triste e perfeita
IV.
cada fábula é os espíritos alumiados por campânulas
e a nudez celeste dos relâmpagos.
sei dos caules profundamente loucos de coração
dos cumes e das cotovias em esfera
um lenço embebido em magnólia
a grande velocidade dos pulmões
e a cor sonora das maçãs.
as estrelas têm uma anca boreal
e as saias intactas brancas
acariciam os deuses nas montanhas inteiramente.
saúdo os oceanos de falcões no ventre
e amo canteiros minúsculos de espuma com os dedos.
V.
quando as crianças cegam
as asas das libélulas ardem de amor e inventam um estio
que queima lírios abertos ao meio.
a túnica de um guerreiro
corre nas pupilas dos gatos
e nas crinas que me nadam.
tenho os ossos em forma negra
e bebo absinto tenro na hora das taças prateadas
e abrem-se teares reluzentes como favos em coral.
um delicado poliedro principia.
.principia.
Cristina Néry ( Portugal ), modalidade Poesia, menção honrosa.
Editado e Publicado por
Gabriela Rocha Martins