Primeira Comunhão




A minha "Primeira Comunhão" foi uma verdadeira tragédia à escala dos meus 9 anos e meio. Odiei o vestido, odiei o padre, odiei a confissão e a penitência, odiei que houvesse pecados e odiei, acima de tudo, a mim mesma, que cometera aquele pecado horrível! Tão medonho ele era, que teria de o confessar à minha mãe para que ela me perdoasse. Só assim poderia ir, no dia seguinte, comungar de vestido branco e véu.
Para explicar que pecado havia sido o meu, tenho de falar primeiro de minha mãe, afinal a personagem-chave desta história. Por isso, o melhor a fazer é começar do início, sem omissões nem atropelos.
A 2ª Grande Guerra terminara já, mas as consequências ainda se faziam sentir: havia escassez de tudo, desde a farinha ao sabão. Mas o bem mais escasso em nossa casa era o dinheiro, absolutamente necessário para alimentos que só no mercado negro se conseguiam adquirir. Apenas os braços de minha mãe nos traziam de comer. Depois de um longo dia de trabalho no campo ainda cobria amêndoa com açúcar em ponto de pérola. E nas tardes de Domingo e de dias de festa vendia-a na praça.
Era ela então uma mulher jovem, cheia de força e de coragem. Apesar de a vida ter sido para com ela uma impiedosa madrasta, conservou sempre a sua imensa alegria de viver. Solteira, com uma filha para criar, não me lembro de que alguma vez tenha cruzado os braços. Às vezes, em situações de penúria, praguejava contra quem amarfanhava o povo em miséria. Claro que, analfabeta, vivendo num calcanhar do mundo em Trás-os-Montes, nada sabia de política.
Mas sabia da dureza da vida.
Porém, a sua dor profunda, a cruz que carregava, era o ferrete que a sociedade daquela vilinha fechada lhe cravara na testa.
O padre negara-lhe o direito à comunhão. Daí a sua raiva aos padres. "São homens. Podres como os outros. Se os não caparam lá no seminário são iguais aos outros". E terminava a sua arenga com um "Deus não dorme" cheio de esperança. Tudo isso não a impediu de ir aos Domingos à missa. Não à "Missa d'Alva", quase às escondidas. mas sim à "Missa-do-Dia", às 10 horas, à vista de toda a gente.
Lavada e escarolada, vestia o vestido de ver a Deus, descalçava as socas, punha meia fina e calçava sapato de verniz preto. Era o seu luxo e o seu desafio às pessoas mais tacanhas da terreola.
A mim, só faltava pôr-me num altar: vestia-me que nem as filhas do Sr. Juiz, fazia-me as tranças, longas e louras que rematava com dois grandes laçarotes. E toda se envaidecia com os comentários das vizinhas: "Que linda vai a tua menina!" Resposta na ponta da língua: "Para que o pai a veja e se reveja. Mas de longe, que a filha é só minha". "Nem digas tal coisa, mulher. É tua e do pai". Senhora do seu nariz, ia buscar um velho ditado: "Quem faz filhos em mulher alheia, perde-lhes o direito e o feitio". Entristecia-me ouvi-la falar assim, mas eu lia a minha mãe como um livro aberto: era a sua mágoa a desabafar. Era uma mulher muito ferida, que se escoava num outro ditado: "Dá Deus o pano conforme a chaga. A mim deu-me a minha filha. E eu vou à missa agradecer-Lhe". E avançava pela nave central da igreja, comigo pela mão, como se fosse uma rainha.
Era simultaneamente mãe-coruja e mãe-rigor. Regras estabelecidas, regras cumpridas. Se uma ou outra vez eu as quebrava, levava umas boas palmadas no rabo.
Tudo isto para esclarecer o leitor não só sobre o carácter da minha mãe, mas também sobre o que depois aconteceu.
Era o mês de Junho. Aproximava-se o dia da Comunhão Solene das meninas dos 9 e 10 anos. Todas as mães caprichavam em comprar o tecido mais bonito para o vestido da sua menina. Também a minha mãe entrou no despique. Viu, apalpou, apreçou e decidiu. "Nada de organsinas nem de organdis. Muito transparentes. Quero xantungue de seda". É que o vestido, depois de encurtado, iria servir daí a um mês, para os exames da 4ª Classe e de Admissão aos Liceus. A única extravagância que se permitiu foi o tule para o véu: fino, leve, vaporoso como uma nuvem. A minha mãe mal conseguia esconder a ansiedade com que esperava o dia da minha Primeira Comunhão.
Eu percebia que no seu íntimo se misturavam sentimentos variados e até contraditórios: gratidão a Deus, uma pitada de vaidade, orgulho q.b. e até um certo e delicioso sabor de vingança: "Foi-me negada a comunhão. A minha filha irá por mim".
Mas à vista, tudo decorria de forma pacata e pacífica.
Até à minha confissão. Chegou a minha vez, fui enumerando os meus pecados: chamei nomes a algumas colegas, fiz batota a jogar o burro em pé, puxei os cabelos a... Mas havia um pecado que tentava esquecer, um pecado horrível que insidiosamente se queria meter por entre os outros. Eu empurrava-o lá para o fundo e continuava: disse algumas mentiras, às vezes arrelio a minha mãe... Zás, lá estava aquele pecado maldito a querer saltar cá para fora. E eu a fingir que o esquecia e ele, irritante, a lembrar-me que estava lá, a pesar muito... O padre a dar-me a penitência e a mandar-me em paz e aquele pecado medonho a queimar-me por dentro. Num esforço desmedido, boca seca e palmas das mãos a transpirar, confessei: "Tirei dois escudos da bolsinha da minha mãe". "Fizeste o quê?" "Tirei dos escudos..." "Isso é um pecado muito feio: é roubar, entendes? E não o querias confessar. Isso é ainda pecado maior". E, sem transição, perguntou: "E para quê?" Boa pergunta. Pensei que podia contar que tirara os dois escudos à minha mãe para os dar a alguém mais pobre. Talvez assim já não fosse pecado. Eu até tinha visto no Largo da Corredoura o filme "O Zé do Telhado" que roubava aos ricos para dar aos pobres. E nós todos batíamos palmas. "Estás a ouvir-me ou não?" "Vou mentir-lhe. Vou mentir-lhe. Mas se minto é pecado a dobrar". "Ouviste o que eu te perguntei? Para quê? Que fizeste ao dinheiro?" Então respondi com a verdade: "Comprei uma bolinha de borracha". "Uma bolinha de borracha! Com que então, uma bolinha de borracha para a menina se divertir". "Todas as outras tinham uma bolinha saltitona..." "E mais o pecado da inveja. Sabias que vinhas fazer a Primeira Comunhão e roubaste à tua mãe metade de um dia de trabalho". Quis justificar: "Não foi ontem. Já foi há muitos dias. Eu só tirava um tostão de cada vez, para ela não dar conta". "Pior: repetiste o acto de roubar dúzias de vezes. Contumaz!"
Fiquei meia tonta, mas que Tomás seria aquele, e respondi: "Fui só eu". "Claro que foste só tu. Ninguém mais roubou a mãe ou o pai." ( Só anos depois daparei com a palavra "contumaz" e percebi o seu sentido ). E a voz irritada do padre ditou a sentença final: "Vais já contar à tua mãe que lhe roubaste esse dinheiro. Pede-lhe perdão. E ela que te perdoe se quiser que venhas amanhã comungar e que te dê uma sova, que bem a mereces. Vai rezar 50 Pai-Nossos e 50 Avé-Marias. Vai, vai...
Queria ter implorado que me mandasse rezar mil Pai-Nossos e mil Avé-Marias, mas a voz sumiu-se-me definitivamente e um ódio enorme cresceu dentro de mim: queria gritar que odiava o padre, que odiava a confissão, que odiava a igreja que excluíra a minha mãe, que odiava o mundo todo. Em vez disso fui ajoelhar-me, hipocritamente contrita, em frente do altar do Santíssimo. Rezei contando os Pai-Nossos pelos dedos, mas perdi-lhes a conta. Sentia que estava a rezar para o resto da minha vida. As outras cochichavam: "Que grande penitência! Tantos pecados!"
Quando cheguei a casa, joelhos doridos e olhos febris, a minha mãe assustou-se. "Conta-me o que se passou. Já me vieram dizer que tiveste a penitência maior do mundo. Eu sei que o maldito do padre quis castigar-te por seres minha filha". Abri a boca para dizer-lhe tudo. Mas a minha mãe já continuava, tentando consolar-me: "Deixa lá, filhinha. Amanhã vais ser a mais linda de todas. Por ti, Deus vai perdoar-me a mim. Deus é Pai".
Quem é que teria coragem de contar-lhe do roubo dos dois escudos? Eu não tive. Já nem sequer me importava com a sova que poderia levar. Senti que roubar a felicidade à minha mãe, roubar-lhe a própria fé, seria maior pecado que ter-lhe roubado dois escudos. Decidi calar-me e pedi-lhe perdão por todas as vezes que a arreliara. Recebi um beijo muito terno, um beijo de alma.
No dia seguinte, no final da Comunhão Solene, a minha mãe deu-me uma caixinha atada com um lacinho branco. Lá dentro estava uma bolinha de borracha.


Júlia Guarda Ribeiro ( Portugal ), modalidade Conto, menção honrosa.



Prémio Litterarius © 2006-7-8
adaptado por gabriela rocha martins