Pausa para reflectir


















Tudo na vida tem um princípio e um fim...
Este projecto, "Prémio Litterarius", como foi inicialmente concebido, chegou ao fim. Esgotou.se. Cansámo.nos de desistências, e, sobretudo, não gostamos de receber ou dizer adeus.
Resolvemos parar para reflectir.
Talvez, por respeito a quem acredita em nós e nos pede para continuar, regressemos. Talvez... Todavia, se tal acontecer, será um projecto renovado e diferente.
Será, igualmente, uma nova equipa, a que, em princípio, dará corpo ao novo Prémio Litterarius. Talvez nem o nome se mantenha... Quem sabe?
Assim,
deixamos este espaço aberto a todos os que têm ideias originais, amam a Literatura portuguesa, gostam de pensar, inventar, escrever, ilustrar e/ou desenhar em português, e, gostam, sobretudo, de partilhar e de ver os seus trabalhos publicados.
O Prémio Litterarius está à vossa espera e conta convosco...
A imaginação, a criação e a aventura da escrita é algo credível e partilhável ... Sempre!
Até qualquer dia!



Deixamos 2007...







Com novos Poetas e Contadores ,e, apesar dos erros próprios de um percurso árduo e da nossa inexperiência, com a consciência do dever cumprido!



Chegam.nos novas ...




E ,de Britiande ,chegam.nos as primeiras novas sobre Litterarius.
Estela Guedes escreve ,como só ela sabe fazê.lo ,em triplov


Lançamento da Revista Litterarius na FNAC






Há cinco anos, assumimos o compromisso de lançar a Revista Litterarius...
Um projecto colectivo, escrito em português, direccionado para a descoberta de novos valores e
diferentes relações com a Arte.





Habituámo-nos a ser pacientes...
Dissemos adeus a alguns companheiros e abraçámos outros.
Abrimos o calendário dos anos com novos concursos literários.
E vimos nascer o Sol e a Lua, nossos referentes, como astros maiores.






Houve premiados em 2003, 2004, 2005 e 2006...
Poemas e Contos primorosamente escritos em diferentes sotaques, mas, gerados na mesma matriz - a Língua Portuguesa.





Mas nós somos gratos...
À Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de S. Bartolomeu de Messines e São Marcos da Serra.
À Câmara Municipal de Silves.
À Junta de Freguesia de Silves.
Aos Poetas, aos Contadores, aos Estetas.
Aos Sonhadores.
À FNAC - Algarve - por nos proporcionar um novo desvendar, um outro mistério, um espaço em que os astros maiores se entrelaçam.
Hoje, 26 de Maio de 2007, a Revista Litterarius abre-se ao Ser/Palavra





Obrigada Amigos...
Deixamo-vos ( com ) este desafio



Encerramento do Prémio Litterarius 2007




Num ambiente informal de tertúlia, como convém ao espírito do Prémio, em 2007, o encerramento do Concurso Litterarius decorreu na Sede do Racal Clube, em Silves.
Júlia Guarda Ribeiro e Ana Mendes, galardoadas com duas menções honrosas, lerem, como só os autores sabem fazê-lo, os contos premiados, respectivamente "Primeira Comunhão" e "A Cabra".
José Ribeiro Marto, 1º Prémio na modalidade Poesia, encantou-nos com seu "Pastoreio"...





Mas impunham-se algumas palavras de circunstância...
A presidente do júri que, infelizmente, não esteve presente, por graves motivos de ordem familiar, fez-nos chegar estas palavras com que abrimos a Cerimónia Solene:

" Saúdo e felicito os concorrentes ao Prémio Litterarius 2007 aos quais foram atribuidos, por unanimidade, o Prémio Único e Menções Honrosas.
Lamento que graves motivos de ordem familiar me tenham impossibilitado de, na qualidade de Presidente de Júri, me encontrar presente na cerimónia de entrega dos prémios, neste dia em que se homenageia a palavra escrita e se reafirma a oportunidade e excelência do Prémio Litterarius.
Conto com a compreensão, que agradeço antecipadamente, dos Premiados, do Presidente do Racal Clube, Dr. Jorge Pereira, da Maria Gabriela, directora do Prémio Litterarius e das minhas colegas de júri, Drª Esmeralda Alves, Drª Paula Bravo e secretária Dª Hélia.
Apresento aos Premiados os votos de continuação de sucesso na sua actividade literária.
A todos os presentes agradeço a participação neste momento de festa e de cultura que é a entrega do Prémio Litterarius 2007 e afirmo que estou convosco em espírito e solidariedade.


Lisboa, 26 de Maio de 2007

Glória Maria Marreiros."



E a presidente da direcção acrescentou...

Minhas Senhoras,
Meus Senhores,
Caros Amigos


Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes
(...)


Natália Correia, Sonetos Românticos.


Em nome de uma mesma identidade literária, nós, o júri e a direcção do Prémio Litterarius agradecemos a presença de todos vós, nesta Cerimónia de Encerramento do Prémio Litterarius 2007.
E estendemos os agradecimentos, também, aos nossos colegas do Racal Clube - seus dirigentes e secretárias.
À Câmara Municipal de Silves e à Junta de Freguesia de Silves.
À Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de São Bartolomeu de Messines e São Marcos da Serra.
E, sobretudo, porque os últimos são os primeiros, a todos os Concorrentes do Prémio Litterarius 2007, Poetas, Contadores e Desenhadores, sem rosto e sem nome, que nos deixaram presos aos segredos das suas palavras e traços.
Foi assim que, ao longo de um mês, procurámos deslumbrar-nos na linguagem dos Escritores e nos traços dos Desenhadores que, nos trabalhos a concurso, ofereceram-nos perpectivas, diferentes e variadas, sob o signo do Conto, do Poema, da Banda Desenhada.
Foi um crescendo de descoberta. Foi a renovação do sentido uno e primeiro da Língua Mãe que, este ano, se transformou num uníssono canto, ao premiar


"Pastoreio", de José Ribeiro Marto, 1º Prémio, Poesia
"A Cabra", de Ana Mendes, menção honrosa, Conto,
"Fénix", de Cristina Néry, menção honrosa, Poesia,
"Errar", de José Ribeiro Marto, menção honrosa, Poesia, e,
"Primeira Comunhão", de Júlia Guarda Ribeiro, menção honrosa, Conto.

Cantaram os Poetas e os Prosadores.
Solitários.
Solitários, porque a escrita é um acto sofrido em solidão transformada em verdade, todavia, não absoluta, tecida nas malhas da palavra.
E enquanto o Júri deliberava ( ouso confessar-vos ) fui lendo, aqui e ali, algumas passagens dos trabalhos a concurso...
Em "Pastoreio" abracei Pessoa. Em "Primeira Comunhão" reencontrei a força da palavra/mulher, e, em "Fénix" e "A Cabra", duas linguagens completamente diferentes ( prosa/poesia ), vi-me deliciosamente presa à subtil ironia de Ana Mendes e à maturidade poética da jovem Cristina Néry...
Não quero maçar-vos.
Muito menos, repetir-me.
Permitam-me, no entanto, que, brincando com Herberto Hélder, homenageie todos os Criadores - Poetas e Prosadores - a quem chamo Amigos e que enlouqueceram, completamente, quando ousaram iniciar-se em Verbo, de olhos abertos ao infinito, com as palavras a arder na ponta dos dedos.
São senhores de um talento doloroso e obscuro, com o qual, diariamente, constroem um lugar de silêncio e de paixão -
A Escrita.

Parabéns, Amigos, e muito obrigada.





Júlia Guarda Ribeiro, ( na mesa ao centro ) lendo "Primeira Comunhão"...





Ana Mendes, lendo-nos "A Cabra"...





José Marto ( e família - Matilde e Rita ), 1º Prémio,
autor de "Pastoreio"



Sessão Solene de Encerramento .Convite







A Direcção do Prémio Litterarius Racal Clube
convida Vª Excia e Família para assistir às seguintes
actividades a realizar no dia 26 de Maio de 2007
17h00
Sessão Solene de Encerramento
Edifício Racal Clube/Silves
21h30
Lançamento a nível nacional da Revista Litterarius



Pastoreio




Fui guardador de rebanhos sem flauta, sem outeiro
com páginas colhidas nos livros a eito, em linhas altas lidas
quando descansava o rebanho e a paisagem tinha escritas
árvores ao sol, frutos ardidos, poeira de brisa, manga curta, camisa desfraldada
eu, na sombra recolhido.

Fui pastor de quase nada
no canto dos pardais revoadas, bicando o ar de linhas curvas
nas largadas de pombos ao fim da tarde
ou das rolas sobrelançadas, furando o céu, na declinada
água ferida de redes, esvoaçando penas picavam linhas cinzentas, mosquiteiras
sob o atarantado das borboletas vermelhas, verdes, azuis na presa dos rendilhados,
desembaraçavam-se das grilhetas fechadas a puxão de espera, magra caça.
Fui companheiro dos bichos que encontrava desirmanados em fugas desajeitadas,
do lagarto escamado a verde e azul,
da cobra serpentina preta num ápice engolida pelo feno,
da lebre fugitiva e astuta à noite sob o trilo dos grilos
ou da batuta da campainha das ovelhas.
Fui guardador do mundo no chão das ovelhas
presas por linhas que nos meus livros deixaram às vezes espaços de página em página,
onde eu me lia e guardava num mundo lido alto; de tempo a tempos
a passagem dos comboios, lentos, de horários certos, horas secretas
do calor dos dias, na convocatória das madrugadas,
de quando um rio horas a fio as alinhava,
as abria por dentro filtradas a sol alto, baixo ou à ferida dos ventos,
da capa que me protegia da água dos dias raros em que chovia.

Guardei ovelhas,
guardei as revoadas dos pombos no meu coração.
Fiz as minhas viagens directas abandonando o meu fôlego de bicicletas, ardendo por
dentro dos livros, onde recompunha escombros,
unindo amiúde as quebras do mundo.
Guardei ovelhas não guardei cabras,
como meu irmão já muito mais velho Miguel Hernandez
que fez tantas descobertas em horas tão incertas,
numa Espanha de tempos muito antes dos meus.
Hernandez morreu no cárcere sem ceder um traço na rebeldia dos versos
de puxar as palavras do avesso
de se afastar do terço
de se irmanar com as cabras que pastava em Orihuela.
Guardei ainda mais rebanhos,
guardei ainda mais ovelhas sendo outras ou as mesmas,
quando os pastores fugiam em debandada de noite
por sangrarem neles solidões
nos longes dias, nas longas horas que havia no pastoreio do gado manso,
na rebeldia dos ocasos em que o sol menos aquecia,
o gado aproveitava e comia,
o tempo em que andava pardo e comia.
os pastores fugiam,
como se de prisões de guardar do gado
levavam a flauta de Marília ou de Elisa
voltavam em mangas brancas de camisa
festejando aparecimento, fazendo promessas:
juravam a água, o sol, os frutos,
juravam afeiçoamento às crias, pertencer à família
queriam-se nos rituais do gado,
na separação, no aprisco
nos canjeirões de leite
no fazer do queijo, um fruto nascido por suas interpostas mãos, liso, aceso,
milagre do coalho ardido nas palmas árduas, nuas
juravam por fim as geadas aos espelhos,
saudavam, cumprimentavam de quem viesse a sua vaia mão apertar.
Mas fugiam às solidões dos dias,
ao fumo das neblinas das manhãs,
ou à intrépida chuva,
ao calor que a noite amealhava,
ao pastoreio úbero logo no Outono.
Corriam as estradas com assombro,
iam as casas longínquas pedir água,
veio o seio insinuado das raparigas, pedir-lhes compromisso de guerra,
dos dias curtos de que estavam à espera,
estudavam-lhes o cabelo,
viam-lhes o manear das ancas,
a escultura da perna.
Bebiam água pelo púcaro, enchiam o cantil,
enquanto outros dobravam assobios também à espera de uma madrinha mulher
uma fada de dias ilesos
que presos hoje ou presos depois
se queixassem da condição escondida das mais altas solidões.
eu fui pastor pequeno que levava recados maravilhados
e trazia água, água,
a água dos Invernos ou dos Verões que eles bebiam serenos.

Os momentos amenos, a sede insegura, a água fresca, quase pura.
Naquelas horas sem batida de relógio o coração a pulso,
eu compreendia aquele mister,
aquelas guardas de horas, como se o cavalo do tempo ficasse suspenso nos ares
e a ele viessem pousar no dorso uma chuva de borboletas.
Li-lhes as minhas letras de livros,
alguns deles ouviam comovidos com os cajados fincados no chão,
como se supensa ficassem a página,
as surpresas, as desfeitas do formigar do amor, a incompreensão dos dias.

A comunicação espalhada no chão
onde laboravam formigas, o milhafre sob arco as via a pino,
e em queda livre as devorava no montículo.
Apenas uma ou outra ovelha se sobressaltava,
soprava um ar de brisa deslassado.
Alguns queriam ler, eram-lhes fáceis,
as horas pediam-lhes entretém,
jogavam pedras ao ar,
desfiavam a contar glórias inúteis
à noite andavam horas e horas a pé,
à procura do destino de um café.
Juravam vinganças vindouras e com vassouras exorcizavam os pés.
Eram eles, os pastores, os pastores muito senhores de muita solidão,
os pastores de casa de meu pai,
os pastores de quem meu pai guardava distância de respeito consentido
que dava folga ao domingo e me tirava as minhas corridas de bicicleta,
a bola entre pés,
os livros de página vincada,
a procura das minhas belas, desejadas.
e me tornava pastor,
eu também era o pastor dos domingos
eu era pastor de rebanhos de domingo
como Miguel Hernandez muitos anos antes foi pastor de solidões.
Eu não era pastor de solidões,
eu tinha livros,
eu aprendia o ofício dos dias,
o mais puro ofício dos dias, a solidão de estar comigo.

Fui o pastor de meu pai nas horas das aflições
em que feitas previsões se dava o descanso aos pastores,
em que se fechavam de amores inconfessáveis pelas madrinhas de guerra,
pelas suas gratas madrinhas de guerra,
as madrinhas de guerra que pensavam
ter solidões de muitas esperas, agora as do gado,
depois com uma guerra, um coração de mulher não se abria,
eles eram de outra natureza,
embora a integridade às vezes tendesse à aspereza de uma palavra maldita,
e acudia a desculpa logo aflita
não se abria o coração de mulher com a promessa de uma guerra,
isso não tornava íntegra a espera -
- dizia minha mãe aos pastores que dispostos nos seus amores
lhe entregavam como penhor
os seus segredos,
- à guerra vais
- da guerra voltas
- não temas na incerteza
não se abre o coração de uma mulher, com a promessa de uma guerra,
se assim for abre-se a porta do medo.

Eu fui guardador de rebanhos,
interroguei as coisas simples:
o silvo das cobras,
o piar dos mochos à demanda das noites,
a queda do sol nos pinhais,
o regresso dos pombos,
os pavões que só desferiam grito aquela hora,
o zurro de um burro que dividia o dia em duas partes.

Fui guardador de rebanhos
e interroguei as coisas simples:
a ordem dos dias suspensos,
o labor dos pássaros,
as asas das borboletas,
bebi o leite a mojo úbere
a regalo dos pastores.

Um alimento exacto e seguro
no contentamento puro dos meus cinco anos
E a minha mãe dizia-lhes...

As mulheres dão-vos o alimento pela colher,
acodem aos filhos a ralho,
acreditam no embalo das sereias nas águas cativas do mar,
têm sempre as mãos cheias,
que mais delas se pode imaginar.

José Domingos Marto ( Portugal ), modalidade Poesia, 1º Prémio.


Encontrado o 1º Prémio em 2007






Com a certeza de mais um dever cumprido, o Júri
deliberou e, por unanimidade, decidiu...



Andavam as mulheres no jardim




Anda o podador no jardim
por entre as mulheres,
elas têm nos vestidos
lírios, malmequeres
ramos entrelaçados,
rosas acesas;

os lábios são tocados
pela seiva doce
do ramo da roseira,
pelo gosto do jasmim
do batom sobrepassado,
a toque de brincadeiras;

as mãos têm riscos
transparentes na flor
dos braços, sem dor
de sangue, ainda quentes.
laboram entre a folhagem
ao sol quase a poente.

Só o podador de galho na mão
impõe um gesto vermelho,
como uma lanterna, o podão.
num jardim de rosas arqueado,
quase rente ao alcatrão.

E as mulheres de riso aberto
lembram-se do seu país deserto,
as férias um dia
a chegada, a ida então;
os risos abertos de comoção
seriam plenos
como já se diz do Verão.

As mulheres levantadas
transparecem na luz do sol
com as mãos fincadas nas cinturas.
são um farol do podão, um tremor;
o podador de guia em guia
labora, distende, cerceia, estria
puxa a si, ergue o galho
desconta a raiz

as mulheres riem no trabalho,
mas também cobram dores,
põem nas bagatelas reunidas
a falar desentendido
muito estranho ao podador;

debruçadas caem pétalas de seus lenços
no chão,
colhem elas dos plásticos pretos
o estrume pousado perto, no alcatrão.

São mulheres simples como é comum dizer-se
do que luz,
do que é inteiro e sereno,
do que é intenso e seduz.

O riso une-as,
o podador impõe o podão
e a puxão arranca cerce as raízes,
tudo queda perfeito
no rumor dos dias quase felizes.

estas mulheres têm casos simples com as rosas,
dedilham o chão das miudezas,
cuidadosas com o labor
daquelas simples certezas
que florescem além do chão,
mesmo antes do podador
admoestar no alcatrão.

Às vezes só uma se levanta,
faz juízo a uma nuvem
que nada traz ao Verão
é motivo de conversa,
todas se erguem para o longe
até o podador, se esquece do podão.

Lembram-se das terras de areias
tudo deixado, tudo ermo,
tudo desabitado nos olhos.
na terra muito longe,
sem uma gota para a sede
levantada agora pela nuvem
na memória dos dias,
no sufoco das estações.


Vivia ao pé do rio

Vivia ao pé do rio
numa cabana de cartão
pontuada a tacha e agrafo fino
num recanto de alcatrão.
Tinha cruz negra à entrada
da marca da mercadoria
quando ele entrava e saía
ficava só, ou dormia
um cão sempre ladrava
como se ele fosse estranho,
um ladrão, ali acoitado.

E sempre um cão perdido ladrava
como se alguém estranho entrasse
no acamado de cartão e ficasse.

ele era o ladrão que entrava
ladrava aturado o cão

Tinha na vizinhança gaivotas
que agudas picavam o chão
os bicos como tesouras
mordiscavam-lhe o cartão.

Às vezes na amurada
o cão via-se à desfilada
nada havia de novo
era o barquito já ao largo,
acenando, estava o dono.

Ele era o ladrão que espreitava
ladrava aturado o cão
as gaivotas em arandel
bicavam no ar papel
investiam no cartão.

Um dia foi-se embora
com o vento o cartão aplanou
as gaivotas pousaram, esgaravataram
ele morreu ou levaram-no.
a que ladram os cães, senão à cegueira dos dias?


Vendes flores por entre carros

Vendes flores por entre os carros
parando , arrancando nos semáforos,
cobres a tua vida, de cigarro em cigarro
dado.
fumas entre o rebento do lume, e o autocarro
parado.

Abeiras-te da papelaria do passeio,
por entre as latas, jornais e plásticos
recolhes as rosas no lixo deixadas;
porque vendeste no momento
crispante da hora, tudo barato, rosas dadas,
sentes que foste gente, e nada logo.
Ah! as rosas na cápsula, o quase vidro
nunca tiveram viço no laço prateado
ou na mão a dinheiro dado.
Vendes a tua vida por entre essas flores
no atropelo dos semáforos
à esmola no asfalto e no pudor.
São rosas devolvidas ao lixo
num instante de mãos colhidas,
da janela entreaberta pelo calor
rosas por ti roubadas às mãos dos podadores
dos jardins, que entrelaçando ráfias e guias
correm os calendários, afixam dias,
vivem no brilho de poucas cores.


Traz-me uma casa do horizonte deserto

Traz-me uma casa do horizonte deserto
lá onde o mar começa
e os meus olhos se fecham
trá-la pela carne da vaga
pedra a pedra conseguida
trá-la vaga, descoberta
de franquia, porta aberta
trá-la de coral e de limos
há-de reluzir nas colinas
há-de crescer de guarida
para quem nela entre e habite
trá-la hoje a hora que o sol posponte
e se veja já no horizonte
janelas, portadas abertas
gente a entrar, a sair delas
encontrando tesouros
fazendo descobertas.
Há séculos que não há caravelas
mas ainda se queimam círios
em muitas casas por dentro
sem rosto sem remetente
sem que um pássaro
possa desabrochar numa flor.


O rouxinol de Bernardim

O rouxinol de Bernardim
era teu ou era meu
quando veio de madrugada
tecer seu canto no muro do jardim?
E após breve pousada
levou os séculos voando
quando perto já de ti,
vim abrir para dentro as portadas.
Ouviam-se carros nas estradas
o rouxinol desaparecia, voava.
À procura de uma árvore
destroçada sobre a terra exangue
na paisagem, vidros partidos, papéis,
galhos, jornais, a tinta a sangue.
No jardim de minha casa
há sempre uma rima de Bernardim
que canta aflita de madrugada,
como se houvesse uma levada
e essa fosse, a do teu amor por mim!


José Domingos Ribeiro Marto ( Portugal ), modalidade Poesia, menção honrosa.



Cabra




1.
Um bairro de prédios alinhados, como se fossem sanduíches numa vitrina. O sistema de refrigeração está ligado.
O meu é de ovo, mas cheira a cabra. É do reino animal, na mesma.
A minha vizinha tem uma cabra em casa. A minha vizinha que trabalha numa horta, que fica entre dois braços compridos. Uma ilha, entre duas linhas na cidade. Dois carris. Uma cabra. A minha vizinha.
Eu tenho um cheiro que se vê. Sou um preto com orelhas de branco, orelhas de rato Mickey, um preto inventado por um americano de pele lisa.
No início, era estranho. Passava os dedos pela pele só para ver ficar vermelha, de um vermelho fugidio, que ia e não vinha. Era uma não-cor. Um preto-branco fugidio. Foi por causa dessas orelhas de preto rato branco que ganhei a alcunha de Mickey. Foi por causa dessa alcunha que criei uma colecção de cromos de preto rato branco Mickey. Tinha vários cromos, muitos cromos que saíam em pastilhas, pastilhas que davam pontos, pontos que davam cromos. Apanhava-os do chão ou davam-mos no supermercado. Tinha muitos, às dezenas, que guardava dentro dos bolsos, mesmo os repetidos.
O Rato Mickey em todas as posições, só e acompanhado, sempre preto, sempre branco. Até aprendi o nome dele, escrito em spray nas paredes.
Eu não sabia escrever por essas alturas, mas sabia o nome do Mickey. Aprendi os nomes escritos nas paredes do bairro. Todos menos o meu. Eu era único. Preto rato branco.
O bairro ficava na encosta de um vale, ao fundo havia uma ribeira, de água suja e turva, mas era só cimento, cimento das obras que havia por ali. Ao longe, erguia-se um centro comercial, construído por muitos de nós lá do bairro, mas não havia uma estrada de ligação de um sítio ao outro. A nossa estrada desembocava numa auto-estrada, a auto-estrada em todos os sítios a que não tínhamos acesso. Nós éramos um bairro de sentido único.
A vizinha trabalhava numa horta, como já disse, e tinha uma cabra em casa. A cabra cheirava mal. A cabra fazia barulho, mas eu não podia deixar de gostar da cabra. A cabra era o sustento da vizinha.
O Tó batatas fritas era uma espécie de herói no bairro. Tinha um gravador preto e grande em cima do ombro. sempre. Eles eram o prolongamento um do outro. Não existiam um sem o outro. O mesmo movimento. Um corpo. O gravador era o altifalante do Tó, a ideia do DJ.
Um dia mataram o Tó. Apareceu pendurado numa trave lá do bairro. Amanharam-no como se fosse um coelho. Ninguém o podia tirar. Ele era um símbolo. Um certo símbolo. A cabra começou a berrar. A cabra berrava cada vez mais, mas a vizinha estava fora. A vizinha trabalhava na horta, que não produzia nada. Para ela. Era um terreno não-fértil.
Passados dois dias, chegou um carro azul com homens igualmente azuis. Monocórdicos. Não falavam. Corriam pelo bairro com paus e levaram pessoas, mas não levaram o Tó, nem o que restava dele. Só um estranho podia fazê-lo. Nós não, nunca nós. Mas eles não quiseram saber.
Um dia a cabra soltou-se. A cabra saiu de casa da vizinha e andou pelo bairro. Eu tinha ido às bombas gamar pastilhas. Quando voltei encontrei a cabra em casa. A cabra em minha casa. Cheirava um bocado mal. Fazia um bocado de barulho. Tinha uns cornos grandes. Até aí tudo bem. A cabra comeu a minha caderneta. Até aí tudo mal. A cabra cheirava mal. A cabra fazia barulho. A cabra não se calava. A vizinha precisava da cabra. A cabra não dava leite, a cabra comia cromos. Os cromos eram meus. Eu matei a cabra, mas fugi dela. Fugi tanto que cheguei ao fim. Já não havia volta atrás, apenas fugir em frente.
2.
Descobri um caminho do bairro para o centro comercial. Corri pela auto-estrada. Saltei para o lado de lá. Ainda tinha alguns cromos no bolso. Encontrei um homem a quem pedi um cigarro. Nunca tinha fumado um cigarro que se agarrou à garganta. À garganta, à cabeça, aos olhos. Até hoje.
Mostrei-lhe os meus cromos. O homem gostou dos cromos. Disse que também fazia colecção. Queria os meus. Eu já não os queria por isso, troquei-os. Troquei os cromos do Mickey por duas colheres de pedreiro. Não foi mau negócio. Não precisava delas, é certo, mas podia fazer algo com elas. Ao bairro não me apetecia voltar. Estava farto daquilo. A cabra berrava na minha cabeça. Cheirava mal. Não a conseguia afastar. A cabra na minha cabeça. Os cornos da cabra.
Nessa noite dormi na obra. Acordei de manhã com os empregados que chegavam. depois andei sem parar até chegar à estação. Apanhei o combóio e cheguei a uma cidade maior. À saída da estação, meti conversa com um homem que me pareceu trabalhar nas obras. Perguntei-lhe onde ficava a obra dele. Lá me disse. Fui até lá e vi muitos andaimes com aparelhos sofisticados. Troquei as colheres de pedreiro por umas botas de couro ainda boas. Calcei-as, porque as minhas já eram velhas. Tirei os atacadores das outras botas. Encontrei um vagabundo na rua a quem as ofereci a troco de um cobertor que ele levava. Ele aceitou e eu dormi de novo. Mesmo com a luz do dia, dormi no vão de uma escada. Eu, o cobertor, as botas e os atacadores que apertavam o cobertor para ninguém mo levar. Depois não tinha de comer, mas apanhei uns restos que me deram num supermercado. Comi e dormi de novo. Andei assim uns bons dias a comer na rua, dormindo enrolado ao cobertor.
Houve um dia que encontrei sítio para dormir perto de uma padaria. Era como ter ar condicionado na rua. Estava sempre quente. Nessa altura, achei por bem trocar o cobertor que era grosso e quente. Em troca recebi um casaco de cabedal, que era valioso. Veio o Verão e não precisava dele. Tornava-se até perigoso, porque toda a gente me invejava o casaco. Era um bom casaco de pele preta. Eu dormia em cartões de papelão, mas tinha um bom casaco de cabedal.
Era um bom casaco, como vos digo, por isso troquei-o por uma bicicleta. Acho que era roubada, mas não fazia mal. Era a minha viatura. Podia mover-me pela cidade. Andar e descobrir, procurar emprego. Mas não consegui. Ainda ouvia a cabra na minha cabeça. Descobri um sítio onde me lavar e voltei à padaria. Pedi emprego e deram-me. Tinha de varrer o chão e limpar as mesas da farinha, para que não se pegasse mais farinha. Era uma coisa divertida. A padaria estava toda cheia de farinha, se era uma padaria, mas eu não podia deixar que se acumulasse mais. Corria de um lado para o outro, limpando a farinha que caía. Parte do meu ordenado era pago em pão, que comia, dava e vendia. Com o dinheiro que guardei, consegui pagar um banho por semana numa casa de um tipo que alugava banhos. Comia uma refeição quente, mas ainda vivia na rua. Dormia debaixo da janela da padaria.
Um dia convidaram-me para trabalhar numa cidade perto da praia. Não tinha dinheiro para o bilhete, por isso, tive de trabalhar e poupar durante uma semana. Apanhei o combóio e lá fui eu. Na cidade da praia era tudo diferente. Era Inverno nessa altura, mas, mesmo assim, era mais quente. Arranjei emprego num bar que tinha um espelho grande de talha dourada. Conheci uma alemã e fizemos sexo uma semana. Ela engravidou, mas abortou. Não fazia mal, eu sabia que tinha tempo para voltar a ser pai. Mas a cabra berrava. Tinha uma cabra na cabeça que berrava. A cabra. A cabra, que berrava. Já não cheirava tão mal. Mas berrava. Tanto que berrava a cabra.
3.
A cidade da praia começou a cheirar a cabra. Já não gostava. Trabalhei ainda mais seis meses a fazer camas, mas valeu a pena. No Inverno, havia poucas mulheres na cidade da praia, por isso, fui contratado para fazer camas e arrumar quartos. Quartos de hotel. As toalhas de rosto dobram-se em três partes, as de banho em quatro e as de rosto apenas em dois. Os lençóis alinham-se pelos vincos e as dobras condizem sempre. Umas com as outras, as de baixo com as de cima. E eu era uma dobra, uma dobra pequena no grande mundo da cidade da praia.
Fiz dinheiro, com o dinheiro comprei uma viagem. Ainda tinha a bicicleta; por isso, foi só trocá-la por uma mala de viagem, que mesmo vazia foi comigo. Era difícil imaginar que partia sem mala, ainda que a única coisa que tivesse para colocar lá dentro fosse a cabra, os gritos da cabra. A cabra que berrava e cheirava mal. Cheirava a cabra. A cabra da vizinha.
Cheguei a Londres, a cidade que me indicaram como a mais bela para um turista do trabalho como eu. Finalmente, um preto numa cidade branca com cara de preto. Era tudo igual. Não havia diferença. Finalmente respirava, mas ouvia a cabra. Ao longe, mas ouvia.
Dormia num quarto com mais quatro. O chão era de alcatifa e tinha chatos, mas eu dormia bem. Descansávamos por turnos. Cada noite, cada um de nós rodava de um sítio para o outro. A ordem estava pré-estabelecida: cama-sofá-cadeira-chão-tapete. Era bastante democrático, dividíamos tudo. Pelo sim, pelo não resolvi desfazer-me da mala. Não precisava dela. Além disso, era um risco. Podia ser roubada a qualquer momento.
Troquei a mala por uma arma. Era a fingir, mas sentia-me mais seguro. Continuava a ouvir a cabra. Quem sabe agora a conseguia matar. Já tinha com quê. Londres explodia-me nos ouvidos.
4.
A casa onde vivíamos era grande, mas éramos muitos. Tantos quanto um autocarro comprido, cheio de gente que se acotovela. Dois andares. Vermelho. O bafo húmido contagia-nos.
A casa era como uma árvore, só que com muitos braços. Já para não contar os galhos. Era ilegal. Na verdade, era uma simples casa de quatro ou cinco assoalhadas, mas depressa o proprietário a transformou em 10. Era simples, bastante simples. Da cozinha nasceu um anexo para o quintal, do anexo outro e do outro, outro. Como se fossem pavilhões numa festa de jardim e nós os convidados para a festa. Sabíamos que ia começar em breve, mal chegasse o inspector.
Não vou enumerar todos os empregos que tive, porque foram muitos. Há um que tenho de referir, porque estou certo de que vão ter inveja. Durante duas semanas colava selos numa empresa, mas apenas das 3h00 às 4h00, período durante o qual a empresa precisava de alguém que colasse os selos da correspondência que era expelida de seguida. Éramos três, numa empresa muito grande, toda envidraçada. Ficávamos num corredor comprido, em pé, os três, colando os selos sincronizadamente. Também fechávamos os envelopes. Movimento perpétuo. Agarra, cola, fecha. Arruma. No fim, fumávamos um cigarro na sala de fumo. Quando não tinha dinheiro para cigarros, enfiava-me lá dentro, na mesma. Nessas alturas ficava cerca de meia hora. Fingia que lia um jornal, enquanto enchia os pulmões com o fumo dos outros. Injecção de vida, não-vida.
Depois comecei a trabalhar num dos muitos bares da cidade. Começou o vício. Por asfixia. Foi aí que conheci a Sylvie. Ela era gerente do bar. Era uma rapariga do norte de Inglaterra. Grande e enorme. Calçava o 43. Tinha pés grandes, que mediam três palmos. Medi-os eu com as minhas mãos. Era mesmo grande. Ela trabalhava ali há muito, era amiga do dono do bar, o que era porreiro. Conhecia bem a noite e as pessoas que a bebem. Bebe-se noite em Londres, como o Tamisa bebe a sujidade que as pessoas vomitam todos os dias. Quando saem do trabalho, debruçam-se no rio, vomitam tudo e depois vão-se embora. Vão ao pub beber mais. No outro dia começa tudo de novo. É um ciclo ininterrupto.
5.
Eu continuava a dormir por turnos. Como não era lá muito popular, começou-me a calhar muitas vezes o tapete. No início, até não era muito chato, mas depois o tapete começou a cheirar a cabra. Tinha pêlos e tudo. Aquilo tornou-se insuportável. Por essas alturas, eu e a Sylvie já estávamos juntos, muito juntos. Por isso, mudei-me para casa dela. Comecei a trabalhar no bar dela, tornei-me gerente dela. Tomei-lhe o lugar. Mas a Sylvie tinha ratos, ratos moribundos, numa gaiola de metal. A minha cabra não se dava com os ratos dela. Ouvia a cabra berrar o dia inteiro. Quando mais via os ratos, mais me lembrava da cabra. Um dia rebentou. Estávamos a dormir. Ouvimos bater à porta. Pancadas fortes e anónimas. Trancámos a porta da frente e corremos para a das traseiras. As pancadas perseguiram-nos até lá. Os ratos subiam as paredes da gaiola descontrolados. A cabra gritava-me na cabeça. Vozes começaram a chegar do lado de fora, impondo uma ordem. Abram, abram. Ratos ratos. Cabra cabra. Voz. A pistola explodiu-me nos dedos. Os polícias caíram do lado de lá da porta. A cabra morreu na minha cabeça.


Ana Mendes ( Portugal ), modalidade Conto, menção honrosa.



Fénix




I.
.é pela saliva que os oráculos se esboçam
nas madressilvas de infinitos pátios
despenham-se pássaros perfumados
e as palavras vivem em amado sangue púrpura
e cervicais vertiginosamente alimentadas.
como os poetas coronariamente
ajoelham em argilas cirstalinas
dobrados pela noite dentro inata de cânticos frios e marinheiros
o diabo é natalício e bebe as espigas em grito
em pórticos destruídos e gritos de gansos pela cabeça.
um areal obsessivo
e um crepúsculo imaculado
e taças de veneno divinas
para algodoar o corpo antes que imensas vozes bebam em corcel
os maxilares rompem rosados
em gerações de quadrúpedes e guerreiros disformes
crateras e cordilheiras
e o cérebro é um miolo de respiração infinitamente breve.
os meus pulsos ausentam-se
os livros antigos ao amanhecer violeta
definem alabardas azuis-líquidas
e barcos regressados das sepulturas âmbares
quero as sementes mais rugosas em aquários atlânticos eternos
e fotografar a língua com acrobatas
sangrar os ouvidos em vestes douradas
e ter a idade do besouro.

II.
o céu é a antiga pálida face das águas
a distribuição de tendões por límpidos arquipélagos.
fossemos ímpares cílios
e atingiríamos o grito dos mortos rosaceamente em precipício.
em fôlego vos digo que todas as mesas postas no Verão
têm a graça do silêncio e um vagar cardíaco
e vazam Deus em faróis
arquejam de cor pela idade dos minerais
quero um alaúde para quando escarpar víboras em frente à noite
festividades nas tripas e as mãos salgadas
e uma espada
as orelhas estampam por dentro as mães
de uma trepadeira intacta sossegada em túmulo.
dancei nos rios milagreiros do barro os rins
e os cegos habitaram-me entre as cruas fibras carnais
e uma seda fluvial flutuou num silêncio todo branco.

III.
o Verão nutre uma Fénix triste e perfeita

IV.
cada fábula é os espíritos alumiados por campânulas
e a nudez celeste dos relâmpagos.
sei dos caules profundamente loucos de coração
dos cumes e das cotovias em esfera
um lenço embebido em magnólia
a grande velocidade dos pulmões
e a cor sonora das maçãs.
as estrelas têm uma anca boreal
e as saias intactas brancas
acariciam os deuses nas montanhas inteiramente.
saúdo os oceanos de falcões no ventre
e amo canteiros minúsculos de espuma com os dedos.

V.
quando as crianças cegam
as asas das libélulas ardem de amor e inventam um estio
que queima lírios abertos ao meio.
a túnica de um guerreiro
corre nas pupilas dos gatos
e nas crinas que me nadam.
tenho os ossos em forma negra
e bebo absinto tenro na hora das taças prateadas
e abrem-se teares reluzentes como favos em coral.
um delicado poliedro principia.
.principia.


Cristina Néry ( Portugal ), modalidade Poesia, menção honrosa.



Primeira Comunhão




A minha "Primeira Comunhão" foi uma verdadeira tragédia à escala dos meus 9 anos e meio. Odiei o vestido, odiei o padre, odiei a confissão e a penitência, odiei que houvesse pecados e odiei, acima de tudo, a mim mesma, que cometera aquele pecado horrível! Tão medonho ele era, que teria de o confessar à minha mãe para que ela me perdoasse. Só assim poderia ir, no dia seguinte, comungar de vestido branco e véu.
Para explicar que pecado havia sido o meu, tenho de falar primeiro de minha mãe, afinal a personagem-chave desta história. Por isso, o melhor a fazer é começar do início, sem omissões nem atropelos.
A 2ª Grande Guerra terminara já, mas as consequências ainda se faziam sentir: havia escassez de tudo, desde a farinha ao sabão. Mas o bem mais escasso em nossa casa era o dinheiro, absolutamente necessário para alimentos que só no mercado negro se conseguiam adquirir. Apenas os braços de minha mãe nos traziam de comer. Depois de um longo dia de trabalho no campo ainda cobria amêndoa com açúcar em ponto de pérola. E nas tardes de Domingo e de dias de festa vendia-a na praça.
Era ela então uma mulher jovem, cheia de força e de coragem. Apesar de a vida ter sido para com ela uma impiedosa madrasta, conservou sempre a sua imensa alegria de viver. Solteira, com uma filha para criar, não me lembro de que alguma vez tenha cruzado os braços. Às vezes, em situações de penúria, praguejava contra quem amarfanhava o povo em miséria. Claro que, analfabeta, vivendo num calcanhar do mundo em Trás-os-Montes, nada sabia de política.
Mas sabia da dureza da vida.
Porém, a sua dor profunda, a cruz que carregava, era o ferrete que a sociedade daquela vilinha fechada lhe cravara na testa.
O padre negara-lhe o direito à comunhão. Daí a sua raiva aos padres. "São homens. Podres como os outros. Se os não caparam lá no seminário são iguais aos outros". E terminava a sua arenga com um "Deus não dorme" cheio de esperança. Tudo isso não a impediu de ir aos Domingos à missa. Não à "Missa d'Alva", quase às escondidas. mas sim à "Missa-do-Dia", às 10 horas, à vista de toda a gente.
Lavada e escarolada, vestia o vestido de ver a Deus, descalçava as socas, punha meia fina e calçava sapato de verniz preto. Era o seu luxo e o seu desafio às pessoas mais tacanhas da terreola.
A mim, só faltava pôr-me num altar: vestia-me que nem as filhas do Sr. Juiz, fazia-me as tranças, longas e louras que rematava com dois grandes laçarotes. E toda se envaidecia com os comentários das vizinhas: "Que linda vai a tua menina!" Resposta na ponta da língua: "Para que o pai a veja e se reveja. Mas de longe, que a filha é só minha". "Nem digas tal coisa, mulher. É tua e do pai". Senhora do seu nariz, ia buscar um velho ditado: "Quem faz filhos em mulher alheia, perde-lhes o direito e o feitio". Entristecia-me ouvi-la falar assim, mas eu lia a minha mãe como um livro aberto: era a sua mágoa a desabafar. Era uma mulher muito ferida, que se escoava num outro ditado: "Dá Deus o pano conforme a chaga. A mim deu-me a minha filha. E eu vou à missa agradecer-Lhe". E avançava pela nave central da igreja, comigo pela mão, como se fosse uma rainha.
Era simultaneamente mãe-coruja e mãe-rigor. Regras estabelecidas, regras cumpridas. Se uma ou outra vez eu as quebrava, levava umas boas palmadas no rabo.
Tudo isto para esclarecer o leitor não só sobre o carácter da minha mãe, mas também sobre o que depois aconteceu.
Era o mês de Junho. Aproximava-se o dia da Comunhão Solene das meninas dos 9 e 10 anos. Todas as mães caprichavam em comprar o tecido mais bonito para o vestido da sua menina. Também a minha mãe entrou no despique. Viu, apalpou, apreçou e decidiu. "Nada de organsinas nem de organdis. Muito transparentes. Quero xantungue de seda". É que o vestido, depois de encurtado, iria servir daí a um mês, para os exames da 4ª Classe e de Admissão aos Liceus. A única extravagância que se permitiu foi o tule para o véu: fino, leve, vaporoso como uma nuvem. A minha mãe mal conseguia esconder a ansiedade com que esperava o dia da minha Primeira Comunhão.
Eu percebia que no seu íntimo se misturavam sentimentos variados e até contraditórios: gratidão a Deus, uma pitada de vaidade, orgulho q.b. e até um certo e delicioso sabor de vingança: "Foi-me negada a comunhão. A minha filha irá por mim".
Mas à vista, tudo decorria de forma pacata e pacífica.
Até à minha confissão. Chegou a minha vez, fui enumerando os meus pecados: chamei nomes a algumas colegas, fiz batota a jogar o burro em pé, puxei os cabelos a... Mas havia um pecado que tentava esquecer, um pecado horrível que insidiosamente se queria meter por entre os outros. Eu empurrava-o lá para o fundo e continuava: disse algumas mentiras, às vezes arrelio a minha mãe... Zás, lá estava aquele pecado maldito a querer saltar cá para fora. E eu a fingir que o esquecia e ele, irritante, a lembrar-me que estava lá, a pesar muito... O padre a dar-me a penitência e a mandar-me em paz e aquele pecado medonho a queimar-me por dentro. Num esforço desmedido, boca seca e palmas das mãos a transpirar, confessei: "Tirei dois escudos da bolsinha da minha mãe". "Fizeste o quê?" "Tirei dos escudos..." "Isso é um pecado muito feio: é roubar, entendes? E não o querias confessar. Isso é ainda pecado maior". E, sem transição, perguntou: "E para quê?" Boa pergunta. Pensei que podia contar que tirara os dois escudos à minha mãe para os dar a alguém mais pobre. Talvez assim já não fosse pecado. Eu até tinha visto no Largo da Corredoura o filme "O Zé do Telhado" que roubava aos ricos para dar aos pobres. E nós todos batíamos palmas. "Estás a ouvir-me ou não?" "Vou mentir-lhe. Vou mentir-lhe. Mas se minto é pecado a dobrar". "Ouviste o que eu te perguntei? Para quê? Que fizeste ao dinheiro?" Então respondi com a verdade: "Comprei uma bolinha de borracha". "Uma bolinha de borracha! Com que então, uma bolinha de borracha para a menina se divertir". "Todas as outras tinham uma bolinha saltitona..." "E mais o pecado da inveja. Sabias que vinhas fazer a Primeira Comunhão e roubaste à tua mãe metade de um dia de trabalho". Quis justificar: "Não foi ontem. Já foi há muitos dias. Eu só tirava um tostão de cada vez, para ela não dar conta". "Pior: repetiste o acto de roubar dúzias de vezes. Contumaz!"
Fiquei meia tonta, mas que Tomás seria aquele, e respondi: "Fui só eu". "Claro que foste só tu. Ninguém mais roubou a mãe ou o pai." ( Só anos depois daparei com a palavra "contumaz" e percebi o seu sentido ). E a voz irritada do padre ditou a sentença final: "Vais já contar à tua mãe que lhe roubaste esse dinheiro. Pede-lhe perdão. E ela que te perdoe se quiser que venhas amanhã comungar e que te dê uma sova, que bem a mereces. Vai rezar 50 Pai-Nossos e 50 Avé-Marias. Vai, vai...
Queria ter implorado que me mandasse rezar mil Pai-Nossos e mil Avé-Marias, mas a voz sumiu-se-me definitivamente e um ódio enorme cresceu dentro de mim: queria gritar que odiava o padre, que odiava a confissão, que odiava a igreja que excluíra a minha mãe, que odiava o mundo todo. Em vez disso fui ajoelhar-me, hipocritamente contrita, em frente do altar do Santíssimo. Rezei contando os Pai-Nossos pelos dedos, mas perdi-lhes a conta. Sentia que estava a rezar para o resto da minha vida. As outras cochichavam: "Que grande penitência! Tantos pecados!"
Quando cheguei a casa, joelhos doridos e olhos febris, a minha mãe assustou-se. "Conta-me o que se passou. Já me vieram dizer que tiveste a penitência maior do mundo. Eu sei que o maldito do padre quis castigar-te por seres minha filha". Abri a boca para dizer-lhe tudo. Mas a minha mãe já continuava, tentando consolar-me: "Deixa lá, filhinha. Amanhã vais ser a mais linda de todas. Por ti, Deus vai perdoar-me a mim. Deus é Pai".
Quem é que teria coragem de contar-lhe do roubo dos dois escudos? Eu não tive. Já nem sequer me importava com a sova que poderia levar. Senti que roubar a felicidade à minha mãe, roubar-lhe a própria fé, seria maior pecado que ter-lhe roubado dois escudos. Decidi calar-me e pedi-lhe perdão por todas as vezes que a arreliara. Recebi um beijo muito terno, um beijo de alma.
No dia seguinte, no final da Comunhão Solene, a minha mãe deu-me uma caixinha atada com um lacinho branco. Lá dentro estava uma bolinha de borracha.


Júlia Guarda Ribeiro ( Portugal ), modalidade Conto, menção honrosa.



Reunião do Júri em 28 de Abril de 2007






O Júri em reunião
(sem a presença do Professor Doutor Urbano Tavares Rodrigues)





A Presidente do Júri ,Senhora Drª Glória Maria Marreiros





Senhora Mestre Esmeralda Lopes





Senhora Drª Paula Bravo





Senhora Dª Hélia Coelho ( Secretária )



Após uma primeira reunião havida em Lisboa com o Professor Doutor Urbano Tavares Rodrigues, a Presidente do Júri ,Drª Glória Maria Marreiros ,reuniu com os restantes elementos, no dia 28 de Abril de 2007, pelas 15 horas ,na sede do Racal Clube ,em Silves .Face à qualidade dos trabalhos a concurso ,apesar da juventude da maioria dos Concorrentes, o Júri decidiu ,por unanimidade

1º Prémio ,modalidade Poesia
"Pastoreio" ,de José Ribeiro Marto

Menções Honrosas
"A Cabra" ,modalidade Conto, de Ana Mendes
"Fénix" ,modalidade Poesia ,de Cristina Néry
"Errar" ,modalidade Poesia ,de José Ribeiro Marto
"Primeira Comunhão" ,modalidade Conto ,de Júlia Guarda Ribeiro.



A cerimónia solene de entrega do Prémio Litterarius 2007 decorrerá em Silves ,no dia 26 de Maio p.f. ,segundo programa que ,oportunamente ,divulgaremos.



sou ...






... jovem ,inteligente ,muito feminina e gosto que escrevam sobre mim



8 de Março .Lançamento da Revista Litterarius






... no dia 8 de março ,pelas 15h30 ,no auditório Francisco Vargas Mogo ,em S. Bartolomeu de Messines ,o nº 0 da Revista Litterarius saiu dos caixotes e viu o ...
... SOL





houve palavras trocadas ...





...
baralhadas





e ouvimos e vimos ...






... a Hélia Coelho revisitar alguns dos textos editados ,demonstração ,inequívova ,de que é possível viabilizar a UTOPIA


Prémio Litterarius © 2006-7-8
adaptado por gabriela rocha martins