Anda o podador no jardim
por entre as mulheres,
elas têm nos vestidos
lírios, malmequeres
ramos entrelaçados,
rosas acesas;
os lábios são tocados
pela seiva doce
do ramo da roseira,
pelo gosto do jasmim
do batom sobrepassado,
a toque de brincadeiras;
as mãos têm riscos
transparentes na flor
dos braços, sem dor
de sangue, ainda quentes.
laboram entre a folhagem
ao sol quase a poente.
Só o podador de galho na mão
impõe um gesto vermelho,
como uma lanterna, o podão.
num jardim de rosas arqueado,
quase rente ao alcatrão.
E as mulheres de riso aberto
lembram-se do seu país deserto,
as férias um dia
a chegada, a ida então;
os risos abertos de comoção
seriam plenos
como já se diz do Verão.
As mulheres levantadas
transparecem na luz do sol
com as mãos fincadas nas cinturas.
são um farol do podão, um tremor;
o podador de guia em guia
labora, distende, cerceia, estria
puxa a si, ergue o galho
desconta a raiz
as mulheres riem no trabalho,
mas também cobram dores,
põem nas bagatelas reunidas
a falar desentendido
muito estranho ao podador;
debruçadas caem pétalas de seus lenços
no chão,
colhem elas dos plásticos pretos
o estrume pousado perto, no alcatrão.
São mulheres simples como é comum dizer-se
do que luz,
do que é inteiro e sereno,
do que é intenso e seduz.
O riso une-as,
o podador impõe o podão
e a puxão arranca cerce as raízes,
tudo queda perfeito
no rumor dos dias quase felizes.
estas mulheres têm casos simples com as rosas,
dedilham o chão das miudezas,
cuidadosas com o labor
daquelas simples certezas
que florescem além do chão,
mesmo antes do podador
admoestar no alcatrão.
Às vezes só uma se levanta,
faz juízo a uma nuvem
que nada traz ao Verão
é motivo de conversa,
todas se erguem para o longe
até o podador, se esquece do podão.
Lembram-se das terras de areias
tudo deixado, tudo ermo,
tudo desabitado nos olhos.
na terra muito longe,
sem uma gota para a sede
levantada agora pela nuvem
na memória dos dias,
no sufoco das estações.
Vivia ao pé do rioVivia ao pé do rio
numa cabana de cartão
pontuada a tacha e agrafo fino
num recanto de alcatrão.
Tinha cruz negra à entrada
da marca da mercadoria
quando ele entrava e saía
ficava só, ou dormia
um cão sempre ladrava
como se ele fosse estranho,
um ladrão, ali acoitado.
E sempre um cão perdido ladrava
como se alguém estranho entrasse
no acamado de cartão e ficasse.
ele era o ladrão que entrava
ladrava aturado o cão
Tinha na vizinhança gaivotas
que agudas picavam o chão
os bicos como tesouras
mordiscavam-lhe o cartão.
Às vezes na amurada
o cão via-se à desfilada
nada havia de novo
era o barquito já ao largo,
acenando, estava o dono.
Ele era o ladrão que espreitava
ladrava aturado o cão
as gaivotas em arandel
bicavam no ar papel
investiam no cartão.
Um dia foi-se embora
com o vento o cartão aplanou
as gaivotas pousaram, esgaravataram
ele morreu ou levaram-no.
a que ladram os cães, senão à cegueira dos dias?
Vendes flores por entre carros Vendes flores por entre os carros
parando , arrancando nos semáforos,
cobres a tua vida, de cigarro em cigarro
dado.
fumas entre o rebento do lume, e o autocarro
parado.
Abeiras-te da papelaria do passeio,
por entre as latas, jornais e plásticos
recolhes as rosas no lixo deixadas;
porque vendeste no momento
crispante da hora, tudo barato, rosas dadas,
sentes que foste gente, e nada logo.
Ah! as rosas na cápsula, o quase vidro
nunca tiveram viço no laço prateado
ou na mão a dinheiro dado.
Vendes a tua vida por entre essas flores
no atropelo dos semáforos
à esmola no asfalto e no pudor.
São rosas devolvidas ao lixo
num instante de mãos colhidas,
da janela entreaberta pelo calor
rosas por ti roubadas às mãos dos podadores
dos jardins, que entrelaçando ráfias e guias
correm os calendários, afixam dias,
vivem no brilho de poucas cores.
Traz-me uma casa do horizonte deserto
Traz-me uma casa do horizonte deserto
lá onde o mar começa
e os meus olhos se fecham
trá-la pela carne da vaga
pedra a pedra conseguida
trá-la vaga, descoberta
de franquia, porta aberta
trá-la de coral e de limos
há-de reluzir nas colinas
há-de crescer de guarida
para quem nela entre e habite
trá-la hoje a hora que o sol posponte
e se veja já no horizonte
janelas, portadas abertas
gente a entrar, a sair delas
encontrando tesouros
fazendo descobertas.
Há séculos que não há caravelas
mas ainda se queimam círios
em muitas casas por dentro
sem rosto sem remetente
sem que um pássaro
possa desabrochar numa flor.
O rouxinol de Bernardim
O rouxinol de Bernardim
era teu ou era meu
quando veio de madrugada
tecer seu canto no muro do jardim?
E após breve pousada
levou os séculos voando
quando perto já de ti,
vim abrir para dentro as portadas.
Ouviam-se carros nas estradas
o rouxinol desaparecia, voava.
À procura de uma árvore
destroçada sobre a terra exangue
na paisagem, vidros partidos, papéis,
galhos, jornais, a tinta a sangue.
No jardim de minha casa
há sempre uma rima de Bernardim
que canta aflita de madrugada,
como se houvesse uma levada
e essa fosse, a do teu amor por mim!
José Domingos Ribeiro Marto ( Portugal ), modalidade Poesia, menção honrosa.