encerra-se um ciclo, abre-se outro ...








Capa da Revista Litterarius
Direcção - Manuela Barros Moura
Directora Adjunta - Esmeralda Lopes



Glória Maria Marreiros, presidente do júri do Prémio Litterarius

Minhas Senhoras, meus Senhores, Companheiros de mesa e de empenhamento:

Depois de ter lido a saudação do escritor Professor Doutor Urbano Tavares Rodrigues, jurado do Prémio Litterarius 2006, é com todo o prazer que, em nome dos restantes membros do júri, do qual faço parte, saúdo todos os concorrentes, especialmente os premiados, o Racal Clube e a direcção do Prémio Litterarius, cuja directora acaba de, brilhante e claramente, nos falar da génese do Prémio, do seu evoluir ao longo destes quatro anos, da sua existência e nos projectos para o futuro que o presente permite já antever promissores.
Senhoras, Senhores e Amigos:
Dizer-se quanto é difícil julgar o que quer que seja, ou quem quer que seja, é um lugar comum, como tal óbvio. Quando esse julgamento implica que um colectivo escolha um trabalho literário, entre muitos, essa tarefa torna-se de dificuldade e responsabilidade acrescidas.
Cada um dos jurados transporta, consigo, a sua formação académica, o seu gosto, sensibilidades pessoais e experiências de vida que hão-de influenciar e modelar as suas apreciações, logo a cotação individual a dar a cada texto concorrente.
Quando, finalmente, depois de horas e horas de leitura solitária, o júri reúne e chega a unanimidade ou consenso, sentimos, nós os jurados, que o nosso trabalho valeu a pena.
Assim, porque mais uma vez o nosso esforço colectivo valeu a pena, aqui estamos para partilhar convosco o nosso prazer, e dar-vos a razão de um pequeno pormenor do qual, certamente, já vos desteis conta:
Pela primeira vez, na curta mas rica história do Prémio Litterarius, o júri, secretariado pela Hélia Coelho e constituído pela docente Mestre Esmeralda Lopes, pela jornalista e licenciada Paula Bravo, pelo escritor Professor Doutor Urbano Tavares Rodrigues e por mim própria, decidiu, por unanimidade, atribuir quatro menções honrosas sem ordenação numérica.
Perguntar-se-á porquê esta quantidade de menções honrosas e em "bouquet"?
A resposta é simples: - Por um critério consensual de justiça.
Encontrado, por unanimidade, o Prémio Litterarius 2006, o júri verificou que quatro trabalhos, na pontuação obtida, se encontravam equidistantes do primeiro. Eis, pois, a razão das quatro menções honrosas.
Permito escusar-me de considerações prévias sobre a qualidade literária dos trabalhos premiados, já que não só o poema a que foi atribuído o Prémio Litterarius 2006, como os contos e poemas com menções honrosas, serão lidos durante esta cerimónia; em breve estarão on-line e, posteriormente, serão publicados em papel.
Pela voz de Paulo Moreira, passaremos a ouvir os textos premiados, começando pelo poema "De Nome Condição" da autoria de Teresa Tudela.
Prémio Litterarius, 2006.


Glória Maria Marreiros.



Mensagem do escritor Professor Doutor Urbano Tavares Rodrigues




Não podendo, por motivos de saúde, estar presente na cerimónia de entrega do Prémio Litterarius 2006, não quero deixar de enviar a minha saudação aos concorrentes vencedores, assinalando, ao mesmo tempo, que entre os trabalhos que recebemos se encontram outros de valor apreciável.
Apresento as minhas felicitações aos premiados, nesta hora cultural que muito prestigia Silves e, em sentido lato, o Algarve e o País, assim como o Racal Clube e a própria organização do Prémio Litterarius.


Lisboa, 27 de Maio de 2006,
Urbano Tavares Rodrigues.



Cerimónia de Encerramento






Na Quinta da Pomona, Silves, ao fim da tarde.



No dia 27 de Maio ...*




Caros Amigas e Amigos,
Exmas Senhoras,
Exmos Senhores,

"Escrever já é um tipo de máscara que se usa para enxergar o mundo", escreveu um dia Nietzsche.


Não sei que lúcida e desconcertante aventura ou qual o fascínio que encontro na leitura de poemas e de contos.
Confesso que não sei.
Confesso que ao prender-me ao imaginário dos autores, corro o risco de confundir o meu próprio imaginário.
Mas sei que ouso projectar-me numa travessia voluntária e obrigatória, numa espécie de passagem entre o conhecido e o desconhecido, entre o grito e o silêncio.
É, então, que percebo quão humana sou, senhora do riso e da tristeza, da comédia e da tragédia...
... Total confusão!!!
Confesso-vos que não me reconheço em todos os poemas e contos, porque nem todos me dizem por igual.
Passa-se o mesmo com as pessoas.
As que eu achava que não se importavam connosco, afinal, importam-se.
E aquelas que eu achava que deveriam importar-se, afinal, não estão aqui...
Acaso estarão em algum lugar?
... Coisas estranhas acontecem ...
Num dia amamos. No outro, acham que a paixão acabou.
Enganam-se!
A paixão ainda não acabou, no Prémio Litterarius, Racal Clube.
Como projecto global que é,
e não apenas como um concurso literário.
Mas..., comecemos pelo princípio.
Comecemos por agradecer a todos os que têm viabilizado este projecto.
Um obrigada à Delegação Regional de Cultura do Algarve.
À Câmara Municipal e à Junta de Freguesia de Silves.
Ao júri - Glória Maria Marreiros, Urbano Tavares Rodrigues, Esmeralda Lopes, Paula Bravo e Hélia Coelho;
ao Secretariado - Marília e Maria de Fátima, e,
à direcção do Racal Clube.
Dizem, e, bem, que os últimos são os primeiros. O nosso obrigada, então, a todos os Concorrentes.
E se os Concorrentes, no seu todo, merecem a nossa gratidão, um especial destaque, aos vencedores de 2006
Teresa Tudela ( Portugal ) - Poesia
João Elias Antunes ( Brasil ) - Poesia
Júlia Guarda Ribeiro ( Portugal ) - Conto
Maria do Sameiro Barroso ( Portugal ) - Poesia
May Parreira e Ferreira ( Brasil ) - Conto
na simbiose da mesma Língua.
Com diferente sotaque, "De Nome Condição", "Revoluções da Noite", "Duas Rosas Vermelhas Que Nunca Cheguei A Receber", "Baladas de Cristal" e "Relampagou" foram os belíssimos poemas e contos que o júri decidiu premiar.
Todavia, um destacou-se.
O poema "De Nome Condição", de Teresa Tudela, a quem o júri, sem qualquer hesitação, deu o primeiro prémio.
Bem haja, Teresa, pelo lirismo, pelo forte cantar de uma flor-menina transformada em condição de mulher.
Mas, bem haja o João, a Júlia, a Maria do Sameiro e a May pela beleza e pelo bem escrever ... na certeza de que, amanhã, estes e muitos, muitos, outros poetas e prosadores, em português, estarão, de novo, na nossa companhia ...
Obrigada, Amigos.
Por fim, breve, a já história do Prémio Litterarius...
Não é, apenas, o concurso literário.
Foi, em 2003, um projecto que abraçou Cabo Verde.
Em 2004, um grupo literário, que se estendeu de Portugal ao Brasil e chegou aos Estados Unidos da América.
Em 2005, uma aventura on-line.
Em 2006, aconteceu ontem, está acontecendo, e prolongar-se-á durante os quatro fins de semana de Outubro, no Café Litterarius.
E, em 2007?
Que seremos, nós, em 2007?
Sem fazer futurologia, o Prémio Litterarius será, finalmente, o que há muito almejou. A edição, em papel, da Revista "Litterarius", acordada no passado dia 8 de Março.
Não, meus Amigos!
A paixão ainda não acabou, porque continuamos a acreditar no sonho.
Sei que somos utópicos.
Mas, precisamente, por isso, somos, convosco, e com todos os que ousam acompanhar-nos,
um caso muito sério de paixão.
( acaso seremos nós
humanos porque sonhamos
ou loucos porque prevalecemos no sonho? )
Caros Amigas e Amigos,
Minhas Senhoras,
Meus Senhores,
obrigada pela vossa presença e pela vossa atenção.
Bem hajam!
Glória ... a palavra é sua, querida Amiga! ...

*... e, destarte, a direcção do Prémio agradeceu.



Em 2006...







Teresa Tudela
1º Prémio em Poesia
"De nome condição"



De nome condição





Três bilhas de grés e um avental
de trespasse
de pontas tomadas atrás com zelo
a guardá-las no regaço

assim estavas pousada ao cimo da escada
um pouco de sombra irregular
nos degraus
lagartixas repentinas e uma espada
vertida
a trespassar doce a
resignação dos vincos tisnados
rizomas afluentes
da raiz silente da raça

pelas cinco ou
pelas seis
tarde metade do dia
longe o setestrelo
as horas de malha
ou tear

dir-se-ia que meditavas
se houvesse prana ao terço
por entre os canastros da eira
ou redenção de si em chaves guardadas
em contas três
de avé – marias

a água
sabias

resguardada
fresca e de grés

Rosa
de teu nome nunca Guiomar
nem se sabia
só mais tarde que houveras tu escolhido

a flor

e é certo que a flor não nasceu
para decorar a casa, Carlos Drummond
e menos a lapela, diria eu
e uma rosa é uma rosa, William
sob qualquer natureza ainda
uma rosa
decerto

certo
e difícil

difícil lembrar-se alguém
ao certo para que nasce uma flor
ao certo para que exala fragrância
e colhe certo o relento da manhã
e o olhar de quem passa

e nem a vê se não tiver preço escrito por perto
certo
ou melhor exorbitante
dando melhor razão
de ser porventura
à rosa

ao certo
uma flor

uma rosa

sem porquê
sem mais que uma flor

uma rosa

e por mais labuta

toda a palavra
expira em nome

o som próprio
que nos sobe dos pés
em estremecimento à cabeça

indissolúvel
de lume
pois foi luz
a lhe dar corpo de nome

todavia Rosa
agora

apenas narcisos despontados no tanque do quintal
longe da pedra oblíqua e do sabão azul e do sal

dizem mais que a água lisa
que bate ali o sol e mais nada
onde batias a braço cantigas a fio
e tranças grossas de roupa branca
molhada

diferentes do teu pucho só no claro escuro
da cor enrolada sem rede sem ganchos
para se desfazer em hidra aberta na água
como a tua à noite no travesseiro calado

nunca percebi que cantavas
que tanto gosto te dava
e forças de estarrecer

a mim diziam coisas tontas
as rimas que esganiçavas
e os refrãos de tolher
mais me espantavam em ti
mulher rija fala séria sonho bem domado
ao rasar do amanhecer

a ti soltavam um pássaro

posto ao entardecer

é tarde Guiomar
e mais em mim

de ti despontam narcisos
no tanque de pedra do quintal

em mim calam-se os medronhos

e nem gota gorgoleja da bica aberta
ao portão

vazias as malgas da marmelada
abelhas zumbindo
rarefeitas nas sebes
de cedro
de ramos cheios
e desiguais

desponta a ordem da terra
desponta um caracol nas couves

despontam trilhos de intrusos
entre a horta e o estendal

contigo
nunca tal teria sido

nem espelhos de narcisos
em tanque de roupa ao sol

vai em tanto a desmesura
e nem te conto o que se diz no jornal

darias cabo de todos os lençóis e rendas
onde estejas que sem roupa te não quedas

e água fresca pulso acima em desafogo e
limpo o chão que onde se põem joelhos
se há-de poder pôr o pão

é tarde Guiomar
e mais em mim

vão-se fechando os sonhos
na lata de biscoitos de araruta

e deixaram de rolar as crianças
aros soltos no jardim ou saltar
cordas cadenciadas
roçando ligeiramente a calçada

súbito
tudo

e a noite tarda
onde ao serão se não faz nada
que acenda estrelas no céu
ou diga aos sonhos de mouras perdidas
e encantadas e sós
como tu e como eu

tu és um texto chamado óbito
e eu um número chamado NIB

libei já de quase tudo
in memoriam
salvo o fel do esquife
entregue à paz vespertina do pomar

sabe-se pouco de marés em verdes anos
e são as tâmaras frutos longínquos
a divisar chamas

sabe-se pouco
da alma
do fogo
menos que mal consome e que há ainda nas cinzas
memórias
e que é nas ínfimas partículas do átomo
o mapa inteiro e sem fronteiras
do que inscrevemos na pele
rasgando os dedos às cegonhas

vês como tenho razão

entre as cegonhas e os biscoitos
e o lençol de narcisos
prefiro copiar-te a receita do pão

só que a não deixaste como dizias

faltou-te esse último serão
e um caderno onde escrevesses
o que sempre tiveste de confiar a outra mão
destra de tinta contida entre sobrancelhas
franzidas

o nome

nem esse
to quiseram dar de direito
nem ditado nem escrito nem escorreito
nem dito
nem a preceito

isso cantarias tão alto
isso buscavas nos sons condizentes
em pregas de alma alongada
em cordas vibráteis de garganta

assinatura
desconhecida

firmada a voz livre
no ar

e todavia
quando te foste

soltou-se a sombra na eira

ouviram-se os lobos dizem
a boca cheia e meia voz

e agora
faço pão mas é mentira

ninguém mais sabe que não era assim
ao que sabia



Teresa Tudela( Portugal ), 1º Prémio, modalidade poesia.


Cerimónia de Encerramento, 2006.






Teresa Tudela, em primeiro plano, olha o infinito...
1º Prémio em Poesia.
Júlia Guarda Ribeiro conversa...
Menção honrosa, em Conto.



Cerimónia de Encerramento, 2006






Em primeiro plano, Júlia Guarda Ribeiro,
menção honrosa, na modalidade conto.
"Duas rosas vermelhas que nunca cheguei a receber"



Revoluções da Noite




UM

Justamente nesta primeira hora do dia
em que um galo se confunde
com uma bala
e o pranto com a alegria
a ave se explode em bomba
e o amor em gritaria
o passado estende-se como uma
roupa desfeita
tudo volta. Carrossel, túnel do
tempo
aqui salvam-se as sombras
as cartas no arquivo
uma velha foto mais
amarela de que o sol
da manhã.


DOIS

Espantalho aberto em pulso
e impulsos
espanta os pássaros do coração
restam apenas as asas da ilusão
e coisas desfiguradas
espantalho-solidão
carrega os livros e os desejos
como uma fonte aberta
a jorrar seu pranto
como um espantalho que
espanta a si mesmo
o canto
espanta a memória
espanta o espanto.


TRÊS

Deitado na grama na sombra
do quintal,
o livro aberto, mas o olho
cansado
transfigurado em sonho
dedo investigando o bolso: vazio.
O grito não é a profilaxia
do medo
a vaca espanta o silêncio
e as moscas com o badalo
e o rabo.


QUATRO

Longo caminho de espera,
sentado no banco, o último,
sempre esta sina maldita
de último, dando o lugar
no ônibus, no cinema
e na história,
sempre o último.
Como vencer os heróis
saltando na manhã
o cerco dos anus,
os caçadores de prêmios
e de tigres?
Como deflagrar uma revolução
apenas com as armas das unhas
e um fósforo dentro da noite
e da história?


CINCO

Não compreendia os sinais do tempo
mas o cérebro trabalhava como
uma máquina implacável
cavando o túnel, o milagre
da consolação
e das janelas, agora
abertas.
O poeta trabalhando no silêncio
da aurora e do crepúsculo
Era um grande observador do
musgo e das
lesmas,
especialista em dejetos
e detritos,
irmão das moscas e
dos gritos.


SEIS

Fazia do domingo um motim
transportando seu barril de
pólvora
no assédio da aurora
subversivo, revolucionário
cheio de cicatrizes no
calendário.
A morte deflagrada na
manhã proletária.
Esses dias de jejum
Esses dias em vão que o trem da
história move-se velozmente
Esses dias em que um homem é
todos os homens,
mais solidário que um deus
mais solidário que um nome.


SETE

Devo inventar algum aparelho para
medir o pranto?
interpor este corpo de palha
entre a fúria e
o louvor?
acender a pira da
memória,
como plástico incandescente
na ponta de uma
vara, derramando
sua lava particular
no formigueiro
(humano)?


OITO

Ou ressurgir da manhã
como um soldado escrevendo
seu diário de guerra
chutando uma cabeça como
se uma cabaça
na oquidão do tempo
Tempo oco como bambu,
mas não se faz flauta
do tempo.


NOVE

Via de regra um cavalo constrói
seu próprio caminho, isto é,
quando não domesticado,
quando não subjugado na
espora, no urro, no chicote.
Um escravo faria seu próprio caminho
se não fosse escravo e
escreveria sua história,
mas a luz compulsória
penetrava as redes do tempo
e da memória.


DEZ

A árvore pende da noite com
seus morcegos indissociáveis
Num tempo perdido, mais
para dentro, mais um recuo
e o mimetismo deste homem
na dualidade do susto.
Regressa a uma cidade feita
de ilusão e espera
feita de tijolos da memória
uma mão amiga que conduz
ao mais dentro, ao sem
volta,
conduz como trilha de fogo
e pássaros
explodindo em um sorriso.


João Elias Antunes de Oliveira ( Brasil ), menção honrosa, na modalidade poesia.



Duas rosas vermelhas que nunca cheguei a receber





Com o galão e a meia torrada nas mãos, a professora Laura olhou à sua volta. Era o intervalo grande. O bar da escola estava a abarrotar. A um canto, avistou uma mesa a que só estavam quatro dos seus alunos de 8º ano. Dirigiu-se para lá e perguntou : “Posso?” “ Claro Setôra”.
Um dos rapazes foi buscar mais uma cadeira e lá se arrumaram os cinco. Para ela, era a primeira refeição do dia : às 8 apenas comera uma maçã, lavada a correr e comida a conduzir. Por entre um golo e uma dentada, reparou que os dois parzinhos se exibiam ostensivamente como tal: dedos entrelaçados e um hipotético endireitar um cabelo para o colocar no seu hipotético devido lugar.
Teriam uns 14, 15 anos. Na semana anterior os namorados eram outros. E a professora lançou um irónico: “ Ora, ora então a dança das cadeiras continua?” “ Oh, pessora, tamém… “ refilou a Pêpê ( Paula Pires de seu nome).
A Professora pousou o copo, limpou os lábios com o minúsculo guardanapo e ergueu as sobrancelhas, tudo em simultâneo. Era uma interrogação muda que os alunos entenderam e a que o Rui respondeu: “ Fogo! Já é a segunda vez que a setôra fala na dança das cadeiras”. E o protesto continuou pela voz da Cláudia: “ Tamém, Setôra nós até gostamos da Setôra… mas, desculpe, acho que é um bocadinho….” “ Bota de elástico?” “ Bota quê?” perguntou o Pedro.
“ Cota, velhadas, chata” acrescentou a professora com um sorriso ainda gaiato, apesar dos sessenta e tal anos. “ E é . Desculpe, pessora mas é”, repisou a Pêpê. E de um fôlego, sai-lhe a pergunta que lhe fervilhava na cabeça “ Há algum mal em mudar de namorado?”
O rosto da professora Laura ficou repentinamente sério e respondeu “ Se calhar, não”. E, de chofre, sem reflectir, atirou: “ Quem quer ir amanhã lanchar a minha casa? Prometo que ninguém se vai arrepender”. Dito isto, assim num repente, quem já estava a arrepender-se era ela. Os miúdos estavam de olhos arregalados, tal era o espanto. Nunca nenhum professor os convidara para irem a sua casa. Diziam entre si: “ Vamos?” “ Porque não?” “ Até era capaz de ser porreiro…” “ E a música em casa do Rafa?” “ Fica para outro dia”. Bom, se não puder ser, se tiverdes algum programa especial, deixai lá. Fica para outra vez”. A campainha tocou. A professora levantou-se e os ganapos perguntaram: “ Podemos dar-lhe a resposta no intervalo a seguir?”
“ Claro”.
No intervalo seguinte lá estavam os quatro à porta da sala dos professores. "Vamos dez, Setôra”. “ Muito bem. Quase 50% da turma. Pelas quatro e meia lá vos espero”, e deu-lhes o endereço.
Perguntou, sabendo de antemão a resposta: “ Chá e torradas ?" E, vendo uns narizes torcidos: “ Sandes e sumos? “ Acenaram que sim e o Rui acrescentou: “ E cola e batatas fritas. Nós levamos “. "Não é preciso." Afastaram-se em correria, como se tivessem de andar a quinhentos à hora.
Afinal foram 12. Discutiu-se se eram 12 ou 13. Por maioria, decidiram que eram 12. Para não serem 13 à mesa, que isso dá azar. “Tolice”.E também porque a professora continuava a estar do outro lado da barreira.
A música de fundo era dos anos sessenta: Beatles, Jim Morrisson, Zeca, Adriano, jazz escolhido.
Os cachopos, se não gostaram, também não protestaram. No final do lanche, pairava no ar a pergunta: “ Que terá ela para nos dizer?” “ Ora, arrumai-vos como puderdes. Há por aí almofadas”. Acomodaram-se. Notaram-se os parzinhos, mas não muito.
Então a professora Laura preparou-se para contar.
A partir daqui a história será contada na primeira pessoa, por razões que se prendem com o curso dos acontecimentos.
- Até entrar na Faculdade nada houve de especial na minha meninice e adolescência. Era filha única e os meus pais viviam de uma pequena mercearia que, para além do arroz, do azeite, etc,
vendia um pouco de tudo
- A Setôra vai contar-nos a sua história?
- Sh ! Caluda! Era o Pedro a comandar.
- Aos 17 anos estava no 1º ano de Românicas em Coimbra. O meu pai alojou-me num lar de freiras. Muito comum nesse tempo, e muito conveniente, pelos horários rígidos que nos eram impostos e por ser razoavelmente em conta.
Ficava na Rua da Matemática, a dois passos das Faculdades e rodeado por uma data de “ Repúblicas”. Passei o meu ano de caloira do Lar para Letras e das Letras para o Lar. No 2º ano, a rotina foi a mesma, para não variar. Mas, por altura da Queima das Fitas, fui com colegas ver a garraiada à Figueira da Foz. Na estação, um estudante abanndo no ar a pasta com fitas vermelhas, portanto quartanista de Direito, gritava a plenos pulmões:” Eh malta! Aqui ninguém paga bilhete.” Parei a ver a cena e ele agarrou-me na mão e levou-me a correr para o comboio.
Não me largou até à Figueira. Claro que já estava um pouco alegre, Aliás, todos estavam, uns mais outros menos. Regressámos juntos, de mão dada. Eu nunca tinha andado de mão dada com um rapaz. Era uma sensação estranha, inesperada, intensa. Nunca a esquecerei.
Naquele tempo, após a queima, praticamente já não havia aulas. Começava a grande “ estudação”, como nós lhe chamávamos, pois os exames estavam à bica.
Eu e ele passámos a ir todas as tardes para o Jardim Botânico que ficava, por assim dizer, mesmo à mão de semear. Sentávamo-nos à sombra de um gingko biloba…
- Ginco, quê? – claro, só podia ser a Pêpê a interromper.
- … uma árvore enorme, antiquíssima, com folhas bilobadas, quase em forma de coração. Pois, sentávamo-nos aí e durante três ou quatro horas seguidas era mesmo estudação. Fazíamos então um intervalo, corríamos para esticar as pernas, apostávamos quem chegava mais depressa acolá, àquele arbusto, ele apanhava-me pelo caminho, ríamos como tolinhos, falávamos de tudo e de nada. Lembro-me com uma ternura imensa o primeiro beijo que demos. Foi um momento glorioso: uma sinfonia de acordes fantásticos, uma composição de sol e flores e pássaros e canções. O mundo era novinho em folha.
E assim se passaram os dias, os dias mais felizes da minha vida.
Uma tarde, no nosso poiso favorito, debaixo da gingko biloba, durante a pausa no estudo, ele segredou-me:” Amanhã trago-te duas rosas vermelhas que estão a desabrochar no jardim do vizinho”. Puxei-lhe uma orelha, rimos descuidadamente, em total enamoramento. E, no esquecimento de um beijo, uma voz medonha, vinda de qualquer lugar medonho, bradou: “ Que pouca vergonha é esta?” . Era a nós que aquela voz horrorosa se dirigia? Olhei e primeiro só vi uma botifarras pretas, donde se erguiam umas pernas monstruosamente altas e, lá muito em cima, a cara patibular de um homem, de chapéu preto atirado para a nuca, que voltava a rosnar:
“ Olhai-me só para esta desavergonhada”. Aturdida, percebi que a “desavergonhada” era eu. Outro homem, em tudo igual ao primeiro, apareceu do nada: “ Que se passa? Uma nojeira, como sempre. Estas putéfias emproadas…” e cuspiu para os meus pés.
Não percebi o que estes dois homens queriam de nós. Continuávamos sentados, de mão dada. O meu namorado levantou-se e perguntou: “ Quem são vocês? Que querem?” Como resposta levou imediatamente dois socos: um esmurrou-o num ouvido, o outro socou-o no estômago. Caiu encolhido contorcendo-se no chão. Apavorada quis aproximar-me dele, mas uma manápula de ferro levantou-me por um braço, enquanto uma boca disforme e repugnante cuspia impropérios “ Sua puta. Sua grandessíssima puta. Os pais descansados lá na sua vida, enquanto estas galdérias andam por aqui nestas merdas”. O outro ladrava para o meu namorado: “ Em pé, seu cabrão. Identificais-vos. Já. “ “ Deixa. Vamos levar estes filhos de uma cabra e identificá-los lá”.
Baixei-me para apanhar os meus livros, mas levei um pontapé nas mãos e os livros lá ficaram espalhados pelo chão. ( A Raquel, opressa, tocou-me nos dois dedos, que ainda hoje permanecem tortos. Lancei-lhe um olhar cheio de afecto). Os meus livros….No meio daquela cena de horror, tive pena dos meus livros. Pensei até no que alguém poderia dizer ao encontrá-los: “ Isto é que são estudantes…gastam o dinheiro dos pais e vede bem o que ligam aos livros”.
Arrastavam-nos agora para o portão do Botânico. Eu chorava que nem uma Madalena.” Ainda vais chorar mais, sua puta, sua vadia de merda”. Passou-me pela ideia que deviam estar a confundir-me com outra pessoa . O meu namorado conseguiu dizer-me, num sussurro, “Não fales. São pides.”
Estávamos em 1959. Portanto, mesmo só de ouvir falar, todos nós sabíamos que a PIDE existia. Mas eu, eu não sabia o que era a PIDE. Estava a sabê-lo do modo mais atroz.
Aqueles eram, de facto, agentes da PIDE. Enquanto nos metiam num Volkswagen azul, a que, devido à semelhança na cor, chamávamos, “caixas de creme nívea”, os enxovalhos não pararam. A viagem foi curta, pois a sede da PIDE, na Rua Antero de Quental, nem a uns escassos 200 metros ficava. Levaram-nos para salas separadas. “ Agora é que tu vais ver o que acontece a putas como tu, todas finas, a estudar na Universidade e afinal andam por aí a dar o cu”. Nunca tinha ouvido nada de tão baixo, tão sórdido. Aquela voz ressumava o mais feroz ódio pelos estudantes, melhor dizendo, pelas raparigas estudantes.
Registaram o meu nome, a residência em Coimbra, o número do B.I., nomes e residência dos pais e tiraram-me as impressões digitais. Tiraram-me também o relógio de pulso, o fio de ouro e os óculos. Deixaram-me sozinha naquela sala sem janelas, sem móveis, só uma mesa e duas cadeiras, no tecto uma lâmpada nua, de luz fortíssima. Esforcei-me por me controlar. Mas as lágrimas caiam-me quatro a quatro. Se era isso o que eles pretendiam: aterrorizar-me, enxovalhar-me, fazer-me sofrer daquela forma grosseira, torpe, mas calculadamente, programadamente, tinham-no conseguido. Eu tinha apenas 19 anos e nunca me metera em politica. Ainda não tinha estofo para suportar aqueles maus tratos, tão ignóbeis quanto gratuitos. Temi pela vida do meu namorado. Temi que continuassem a bater-lhe. Perdi a noção do tempo. Podiam ter-se passado horas ou apenas minutos.
Depois do que me pareceu uma eternidade, alguém abriu a porta, colocou os meus pertences em cima da mesa “ E agora põe-te no olho da rua, sua ordinária. Mas não penses que o caso fica por aqui”.
E o caso não ficou por ai. Passados três dias ( continuava sem notícias do meu namorado), os meus pais, inesperadamente, ou nem tanto, vieram buscar-me. Já não fiz os exames. A PIDE havia escrito uma carta que, acintosamente, enviara para o posto da GNR da minha terra. O meu pai foi chamado com urgência e a carta, já aberta e lida, foi-lhe entregue pelo sargento, seu parceiro na sueca que, com um riso escarninho, lhe disse : “ No melhor pano cai a nódoa, amigo Lopes”. Li essa carta após a morte do meu pai. Guardei-a e há mais de trinta anos que não lhe pegava.
Escutai:
“ Sr Altino Lopes ( era o meu pai)

Vimos, por esta, trazer ao seu conhecimento que, no dia 24 de Maio do corrente ano, pelas 17 horas, a sua filha Laura da Silva Lopes, foi encontrada por dois dos nossos agentes, em local recôndito do Jardim Botânico desta cidade, praticando actos indecorosos.

De V.Exª etc, etc. “

Como é de calcular, o meu pai ficou destroçado. A sua filha única, a sua menininha, apanhada em actos indecorosos. Que dor de morrer! Para além da imensa dor, era a humilhação, o vexame, porque toda a gente naquela vilinha beirã ia saber e comentar o facto.
Reagiu como seria de esperar. Primeiro acreditou piamente que a carta dizia a pura verdade.
Nem punha na ideia que alguém da polícia pudesse estar a inventar aquelas aleivosias. Em seguida, vociferou para a minha mãe ; “ Vamos buscá-la. Acabou-se o curso, acabou-se a Universidade, acabou-se a minha vida. Acabou-se tudo”. O pranto da minha mãe era de cortar a alma. Até ela coitadinha, acreditou que eu fora, realmente, apanhada em flagrante acto sexual.
Naquela altura, isso era de todo inimaginável. A infelicidade que esta maldita carta causou!
Foi assim que o meu curso foi interrompido. O meu e o de sei lá quantas outras raparigas, cujos pais receberam cartas semelhantes. Era assim que a PIDE procedia: tinha peritos em espiar, em insultar, enxovalhar. ( Mais tarde soube que também os tinha para torturar e assassinar.)
Destruíam as nossas carreiras. Achincalhavam as famílias. Ficavam vidas e famílias em frangalhos.
Foram muitas as moças que, como eu, sofreram. Mas também muitas, as mais corajosas, foram à luta. Lutaram para que vós tenhais hoje liberdade, para que possais andar de mão dada e beijar-vos em público, namorar sem temor, num doce não-cuidar…
Parei. O silêncio era opressivo, a tensão entranhava-se por todos os poros. Os traços naquela dúzia de rostos estavam mais acentuados. Em alguns olhos bailavam lágrimas.
Fiz o meu mais amplo sorriso, abri os braços e exclamei:
- É maravilhoso poder gozar de liberdade!
Porém, a professora que há em mim, acrescentou à revelia de mim:
- Mas acreditai que é difícil saber gozar a liberdade.
Podia terminar aqui a história. Nem seria um muito mau final. Mas a verdade é que não está completa.
A Pêpê – quem havia de ser - foi a primeira a recuperar o azougue e a fala. – Eu sei o que a pessora quer dizer : namoro não é a dança das cadeiras.
Se a história ficasse por aqui, também não seria fora de jeito, uma vez que acabaria por onde começou. Em muitas histórias é isso que acontece. Mas não foi assim que esta terminou. Houve perguntas.
A primeira, do Rafa, teve razão de ser:
- Então como é que a Setôra tirou o seu curso?
- Quando o meu pai, 11 anos depois, faleceu, decidi pôr fim ao meu cativeiro. Tinha trinta anos.
Peguei na minha mãe cansada e envelhecida. Vendi a pequena casa e a mercearia que já estava a falir, e vim para Coimbra. Dei aulas e explicações. Quatro anos depois, a minha mãe ainda teve a alegria de me ver formada. A minha alegria foi a dobrar porque nesse ano, 1974, deu-se a Revolução dos Cravos. Conquistámos a liberdade e a PIDE acabou.
- E o seu namorado? Nunca lhe escreveu? Nunca a procurou?
- Escreveu. Escreveu durante três anos ou mais. O meu pai queimou sempre as cartas. Ele pensava que estava a proceder bem. Quem sabia que fazia mal era a PIDE. Para essa escória é que não pode haver perdão.
- Então nunca mais soube nada dele?
- Não.
- Nunca mais namorou?
- Namorei. Mas creio que não teria dado certo.
- Porquê?
- Porque ele continua a habitar aqui e aqui – e apontei para a cabeça e para o coração.
- Setôra, como é que o seu namorado se chamava? – perguntou a Sara.
- João Bernardo. Mas ele não gostava do nome Bernardo. Então os amigos, para o arreliarem, chamavam-lhe o nome que lhe davam em pequenino: Jóbê. Claro que, já homem, também não gostava do nome menininho.
- Era o meu avô! O meu avô, Setôra: João Bernardo Faria Vaz - exclamou o Pedro, que estava sentado junto dos meus pés.
Os risos que já se esboçavam ficaram suspensos.Tal como nós. Um calafrio nos percorreu. o Pedro pôs as mãos sobre os meus joelhos, fitou-me e deitou a cabeça no meu regaço. Acariciei-lhe o cabelo alourado. Poderia ter sido o meu neto.
De rostos sérios e olhares solidários, foram saindo todos. Sei que iam mais crescidos, mais adultos, mais responsáveis. Eu tinha, definitivamente, passado para o outro lado da barreira.
Ficámos sós, o Pedro e eu. “ Ele já morreu, Setôra, No ano passado”.

E aqui estou, a colocar-lhe sobre a campa duas rosas vermelhas que nunca cheguei a receber.

Júlia Guarda Ribeiro ( Portugal ), menção honrosa, na modalidade conto.



Cerimónia de Encerramento do Prémio Litterarius 2006






Quinta da Pomona, Silves.
Em 1º plano, Teresa Tudela, 1º Prémio,
na modalidade Poesia.



Cerimónia de Encerramento do Prémio Litterarius 2006






Quinta da Pomona, Silves.
27 de Maio de 2006.



Baladas de Cristal




És o abandono límpido e sobre ti me inclino

És o abandono límpido e sobre ti me inclino,
porque o amor é uma inflorescência indizível,
sobre galáxias de alfazema.

Perscruto-te, numa errância obscura e procuro todas a metáforas
em que te possa transformar,
mas apenas as linhas se insinuam e as sombras espalham-se
pela tua avidez porosa.

O vento é a tua imagem e o ar, com a sua cabeleira volúvel,
fascina-me, como o teu rosto de olhos insones.
Amo a lua e o sol, a terra, em seu pulsar vigoroso.

Afasto a neblina inerte e perco-me em ti, porque os teus olhos
são tâmaras azuis, labirintos de música
e o mar é uma explosão exótica que vibra, galgando o corpo
e as suas margens.

A totalidade é a chave que te inventa.
És a primavera de espaços sucessivos, a rosa dúbia,
a sombra incandescente desses lugares que emergem,
íris e caos, pedra volúvel, navio versátil.

Pelo teu rosto salgado, encontro o laço da volúpia,
o corpo das brisas, neblinas, veludo, algas movediças
e um terror subterrâneo,
fonte intranquila, colmeia dulcíssima,

num vazio errante de céu e nenúfares.



Sobre Janelas Flutuantes

As gaivotas tomaram conta da praia e sobre a Artemisa apaziguada
me debruço,
escrevendo uma cósmica balada sobre o amor imperfeito.
Penso nas orquídeas subterrâneas, nas marcas do teu ser
e nas palavras, geradoras de origens.

Na transparência que me envolve, veludo é o teu corpo,
o teu sangue, cálice de giestas, voz que te enuncia.
E o vazio é existirmos, sem sermos um para o outro, o vazio
é compormos esse vazio em nós.
O vazio é sermos fluxo, movimento e, no entanto, estratégia,
ao entreabrirmo-nos um para o outro, sobre janelas flutuantes.

Na natureza redunda o tempo, o espaço, e as palavras
são marcas da tua seiva geradora.
Um movimento, um só, um único, e nada mais teríamos
que inventar
( toda a estética poderia voltar a ser convencional)
Quando a noite se desprende dos seus cálidos umbrais
e o fogo grita a vocação do sol que cria rodas, espirais.

Para ti se inclinam os turbilhões vorazes, o silêncio explícito,
uma estrela mutante, quando redundam pela luz, túmidas saxífragas,
e és, como os adoradores da penumbra que trazem,
em si, as rosas brancas da alegria.

Para ti se inclinam as cigarras negras, os fluidos alfabetos
da tua natureza íngreme, solar de verdes turbilhões
e espaços lunares.
Há um sortilégio de espuma, deixado no mar, pela Deusa.
Cíprea e os cometas diluem-se, no teu corpo, dilatando
a sua sombra voluptuosa,
instalando, na sua mecânica subversiva, a palavra, o gesto,
o desejo de ti.

Para ti recolho a música, e os dias desenvolvem-se
na sua pragmática lenta,
os cometas envolvem-me, porque é junto de ti que me construo.
Em ti vislumbro as planícies fulvas, o corpo do mar,
a irrigação das estrelas.
É pelo teu olhar que me travessas, com os teus laivos
de flores e as tuas chamas de lanças movediças.

Junto de ti construo-me, numa casa itinerante,
abrigo de oiro, no sabor claro de um lugar perene,
que oscila, sob ramos de um vento ébrio, lucilante.
Sobre ti se instala o vento, o seu fulgor, a sua marca incessante.

Nas vagas do mar, nos turbilhões da luz é que me afundo,
e os pássaros cantam em ti a canção da noite.
Sobre ti escrevo a neve, o sol, o gelo, os seus degraus flutuantes,
no teu corpo, no corpo da palavra, vertigem errante,

pátria de nuvens, que a luz enuncia.



As Redes Dulcíssimas

O amor. As poderosas reminiscências. Sob buganvílias leves,
as redes dulcíssimas, as brisas ardentes.
Por debaixo das varandas, o aroma do mar, o som do cravo
reaviva o peito que se fecha, esmaga, se o ser amado tem a cor
de um verso, se, no seu olhar se espelha a névoa, o fulgor,
a transparência dos dias exactos.
É tanto mais perigoso se o seu perfil possui aroma
das musas irreais, se na sua face se espalha a paixão
de uma ária de Puccini,
se os seus olhos tornam as horas lentas, wagnerianas,
e, se no seu peito de espuma, o mar se estende
e as liras implodem.

Algures, sob os céus da Acrópole, as estrelas apressam
o seu brilho, o amor a sua sombra.
No clamor de estátuas quebradas, procuro o vinho de todas
as ânforas perdidas, disserto sobre a noite narrativa,
penso em Atena, um verso de ouro, em seus olhos,
enquanto o tempo, fixando as suas volutas,
filtra a rósea carne, o rasurado mármore.

Nas fímbrias do céu, desdobrado, em seu manto dourado,
vislumbro a tormentosa deusa Cípria;
algures, sob os castelos de música, nos ecos mediterrânicos
da Arrábida, espalha-se uma brisa doce, um vinho suavíssimo,
quando, artesão do fogo e das promessas,
como um fauno me espreita, as uvas precipitam-se
e a Grécia é uma romã esplêndida, onde as flores de névoa
se consumam, entre areias leves, buganvílias soltas,

violetas vibrantes, flores de noz-moscada.



As algas, as flores e os ditirambos

As algas, as flores e os ditirambos, tudo respirava,
o céu era uma cabeleira doce.
Pensava nos elefantes de Aníbal, nas razões para as coisas,
nas razões de existir, na razão sem razões, na razão dos acasos,
quando a noite sufocava, em suas constelações opacas,
e vagueava, por entre os livros e as acendalhas.

Na plenitude dos relâmpagos, um frémito de luz acendia
a minha alma louca, a minha alma leve
e os pássaros distendiam-se.
Sobre construções sombrias, o pólen insinuava-se,
e os lírios eram a razão para as coisas, a razão do silêncio,
a razão sem razões.

Nas acendalhas de cinza, os pássaros mortos fluíam,
por entre o corpo vertiginoso e os narcisos leves.
Uma luta interior desdobrava-se;
Aquiles e Heitor dançavam, sobre a sua cintura de morte
Depois Livy* descrevia Aníbal, juntando as forças lentas,
junto à rota de Hércules Tireu, em Gades.
E a lua pesada entrava.
Por um momento, parava a razão para as coisas,
a razão de existir, a razão dos acasos.
O coração explodia.
Pela alma vazia, havia doces clamores escutava
Sergiu Celibadache dirigindo Richard Strauss
( Tod und Verklärung**)

As roseiras inundavam-me.
Aníbal desbravava os Alpes e os elefantes eram leves,
junto aos lírios enlaçados, Atena nobilíssima.

Com as mãos abertas, as lágrimas inundavam-me,
as guerras míticas terminavam, as fontes clarividentes
brilhavam, as rosas e o açafrão nasciam,
as violetas articulavam a luz, o orvalho,
e os cavalos galopavam, voavam como Pégaso,
junto aos centauros brutais que outrora guardavam
as fontes de Castália.

___________________________
* Historiador das Guerras Púnicas
**Morte e transfiguração



As redomas do Mundo

Os dias disparavam a lua, a escuridão,
a flor da existência,
as redomas diluíam-se.
A noite sufocava, em suas constelações opacas,
entre uma ária de Massenet, um adágio
de Mozart.
Os dias eram lúcidos.

Sob veias nocturnas, os nós construíam-se.
Num incêndio imperceptível, a noite,
as redomas da lua,
o peito dilatava-se, o mundo aquietava-se,
sobre as brisas doces.

E o silêncio disparava sobre mim
a flor vazia.



Sob a lua verde de espuma

Sob a lua verde de espuma, respiravam
as musas, a música, o hálito das estrelas.
O coração emancipava-se.
De nós. Para nós
a espera galgava lentamente ínfimos
degraus.

A imensidão do mar articulava o silêncio,
a voz.
Por entre as súplicas e o silêncio,
os limões dourados transformavam
a sede e a frescura,
os dias côncavos,

no fulgor dos dias transbordantes.



Algures, na diástole nocturna

Rigorosamente, as papoilas nada dizem,
ou falam da vertigem, nesse limiar onde tudo é possível,
na bruma sedenta onde os poetas inventam a noite,
a volúpia, a alquimia das brisas leves,
segregando, algures, na diástole nocturna,
o corpo cheio de azul, o corpo segredo.

Rigorosamente, nada existe ou tudo se supera,
entre substâncias magmáticas, substâncias frias,
e recordações de linfa, mar, pólen e neblina,
que moldam a névoa e as chamas, junto aos campos,
onde o trigo deixa de nascer.

Rigorosamente, nada existe, mas sei que existes ainda,
como um ópio poderoso recordo-te,
porque o peito era o sítio onde costumavam
adormecer os violinos, em surdina,
e, em ti, escutando ainda, a lua, dois madrigais,
as tuas pérolas.
Quando um barco silencioso assoma, no horizonte,
sulcando o mar dolente,
recordo ainda as tardes que passávamos,
à luz de Tasso, Goethe, recordações

ou poemas de Jánis Ritsos.



Baladas de Cristal

Também os desertos me sufocavam.
por isso, as árvores luminosas se abriam,
na ternura dos teus braços.

Só eu sabia que ele era o mercado dos duendes,
o mercado dos frutos, o mercado dos novelos.
Todos aqueles frutos eram proibidos,
como os teus lábios, feitos de cedros, topázios,
saborosos dilemas, poemas de Paul Valéry,
ou harmonias róseas, como as que Picasso
haveria de distorcer, em Avignon.

Teria evitado esse tempo, mercado ávido de seiva
e de duendes,
entre baladas de cristal que só eu via,
nos cumes de pedra, nos átrios de sombra,
nas metamorfoses da morte,
num frémito unguérissable que só eu sabia.

Teria evitado esse tempo, ou tudo teria vivido,
fruindo o teu nome, escrito na fidelidade de uma ilha,
coberta de perfumes suaves,

de magnólias, céu e ametistas.


Maria do Sameiro Pereira Reis Barroso ( Portugal ), menção honrosa, na modalidade poesia.

Relampagou




Que fim poderia ser mais devotadamente desejado?
Morrer… Dormir! … Talvez sonhar! Sim, eis aí a dificuldade !

Hamlet , ato segundo . W.S




Gustavo era grande o suficiente para ir à padaria sozinho e cortar o seu próprio bife. As férias de verão chegavam ao fim e ele estava louco para aprender a leitura de palavras inteiras.
O primeiro dia de aula é o segundo melhor dia do ano. O melhor dos melhores é o primeiro dia das férias. Bons igualmente em sensações e curiosidades.
Naquela madrugada, Gustavo acordou com o barulho da chuva.
Era mais uma simples tempestade, a casa começou a tremer e ele logo imaginou uma manada desgovernada de búfalos atravessando os céus aos galopes em busca de água. A cor de néon de cada relâmpago transformava em fotos negativas os móveis do quarto.
Com essa barulheira toda, ninguém vai me ouvir se eu chamar, pensou. Puxou o lençol, aninhou-se, cobriu a cabeça e tremeu.
De repente um som muito maior rasgou o espaço, um baque surdo no quintal. Será o quê o estrondo, apavorou-se o garoto. Dormiu encolhido, paralisado, suado. Dormiu de cansado que estava.
De manhã cedinho, ansioso, abriu vagarosamente as janelas. No costumeiro lugar do Ipê amarelo, algo desconhecido. Sua respiração estancou e a voz sumiu como às vezes costumam sumir os gatos.
Rebuliço na cabeça, bulha no peito. Papai, Mamãe, corram aqui, venham ver, grita Gustavo. Esqueceu-se completamente de que o pai tinha ido viajar e só voltaria no final do mês. Ao ouvir os gritos, a mãe vem ao seu encontro e o vê debruçado na janela. Aproxima-se devagar, não quer assustá-lo mais ainda e surpreende-se com o que está lá fora.
Um pedaço de azul. Um pedaço de céu. Um céu repousado, se acomodando entre a mangueira e a jabuticabeira, caído pertinho deles, do tamanho justo deste quintal. Um pedaço de céu lindo, desanuviado, sem estrias de frio nem prenúncios de calor. E os dois na casa e a casa palco de algo incomum.
Gustavo agarra-se ao pijama da mãe, que o abraça fortemente.
Vamos descer Gustavo, do quintal poderemos ver melhor o que é que desabou aqui. É bom tomar cuidadinho, é bom ter cautela, fala mamãe enquanto descem as escadas.
O jardim totalmente azulado, com algumas nesgas brancas ou transparentes. Lá no alto do céu do firmamento, um pequeno buraco, escuro, que nunca esteve ali.
Nunca soube de ninguém que tenha visto um pedaço de céu sem céu. Foram os raios, Guto, devem ter se cruzado com tanta violência que quebraram este pedaço, diz a mãe.
Mamãe, se isto está acontecendo de verdade acho que é tudo o que eu nunca nem pensei pedir a Deus, diz Gustavo, já tentando se soltar das mãos maternas. A mãe encostada na parede vai escorregando até sentar-se e Gustavo vai junto, um pouco no colo, um pouco no chão, um muito não se sabe aonde. A gata vem lá do fundo do quintal, de dentro do azul, ressabiada, pula no colo da mãe com um miado de estou aqui.
Gustavo diz, se a gata estava lá dentro e saiu toda bem , é sinal de que podemos entrar também, e antes que a mãe pudesse esboçar atitude ele entra no azul. A gata dá um salto quando a mãe se levanta para seguir o menino. Ela diz ao filho, alumbramento, isto é o verdadeiro alumbramento.
Aquele pedaço de céu veio em nu estelar, então, assim que o sol enfraqueceu, Guto e a mãe voltaram para casa, tranquilos, felizes, deslizando no sereno. Esta noite, a primeira noite depois do céu cair em sua casa, foi a primeira melhor noite de todas as noites. Mãe e filho rezaram juntos, ela acomodou o filho na cama, beijou sua testa, durma bem meu anjinho.
Não posso descrever meu céu, como falar em algo que não existe, como pensar em algo inimaginável. Como dormir pensando, melhor pensar amanhã , acordado, as coisas do céu devem ser assim mesmo, Gustavo pensava, tentava dormir, tentava pensar.
Manhã seguinte a do melhor dia da melhor noite, Gustavo pulou da sua janela diretamente para o pomar azulado. Aprendeu a voar, a nadar no anil. Às vezes se estirava entre um canto e outro de alguma nuvem desavisada, e olhava aquele outro céu banguela.
Quando papai chegar ele não vai acreditar mamãe, isto aqui é melhor do que sorvete de manga, calda de caramelo e balas de goma, é bom de ver de comer e de pegar, ria o Guto, sabendo que em casa havia um pedaço de paraíso só para eles.
Outra manhã, mamãe acordou com olheiras profundas, justamente na melhor de todas as semanas. Estava quieta, falando baixinho, pediu para papai voltar mais cedo, segredou com a avó por telefone.
Você não vem mais comigo mamãe, perguntou o insatisfeito filho. Querido, não estou muito bem, dor de cabeça, enjoo, talvez tenha pulado muito no outro dia, vá, vá você. Ele foi, sorveteu-se. O pai chegou nesse mesmo dia. Alegria para o menino, mas o pai tinha que ficar com a mamãe na maior parte do tempo.
Chegou um dia em que a mãe não quis mais se levantar. Guto ia até ao quarto, dava um beijinho em seu rosto e corria o seu dentro e fora. Estava tão entretido de céu que não percebeu a mãe a definhar. Ela foi sumindo aos poucos, mais um pouco todo o dia. Já estava muito pequenina quando papai falou para Guto que ela estava doente.
Gustavo sentou-se ao lado da mãe. Para mim, isso é mais impossível do que ter nosso parque celeste, você não pode estar doente, nós temos nosso céu, lembra, perguntou aflito o filho.
A mãe sorriu, passou as pequenas mãos no rosto do menino. Neste dia ele viu o quanto que ela estava menor do que ele. Mamãe, será que cresci isso tudo, perguntou.
Sim, meu homenzinho, você cresceu mesmo. Sua voz era muito menor do que ela, um fiapo, um suspiro, um quase nada.
O menino foi para o quintal sem nenhuma vontade de entrar no azul. O pai foi ter com ele. Está na hora de mamãe ir para o céu, disse o pai.
Ora papai, é só trazê-la aqui fora, eu cuido, nós cuidamos muito bem dela, podemos ficar juntos no nosso mundinho de céu, reage Guto.
Do céu caolho, daquele outro céu que papai estava falando, ele não quis mais nem saber. Melhor ficar mergulhado no azul. Passou a comer nuvens, beber orvalho. Seu pai começou a ficar abatido também.
Um dia o pai pegou Gustavo nos braços, abraçaram-se e choraram juntos.
O menino nunca viu o pai chorar, aquela era a primeira vez.
E esta foi a pior semana de todas as semanas piores da vida de Gustavo, desde agora até sempre.
No outro dia, pela janela ele viu. O azul começou a escurecer. Foi ficando preto, intenso, vigoroso.
O pai foi até seu quarto, precisavam também recolher e cuidar de suas almas, ampará-las, abraçados, silenciosos assim.
Gustavo entendeu que a mãe estava indo embora para não mais voltar. Ele não a viu entrar em cinza, não quis ver, melhor lembrá-la no arco-íris.
Veio a chuva novamente. Raios, trovões, tudo na terra se descompondo. O que era firme começou a transformar-se. O aguaceiro atravessou a casa, inundou as ruas, as avenidas marginais e interrompeu o tráfego durante dias, os rios transbordaram. É o dilúvio disseram.
As águas foram tão violentas que fez-se mar o sertão de asfalto. Houve um apagão geral em vários lugares do país, coisa vultosa. Dias sem energia, confusão nos centros comerciais, escolas paralisadas, caos. Os técnicos disseram que foi um raio na usina. Alguns refutaram essa ideia.
Naquele que foi o pior dos piores dias de todos os dias de todas as piores semanas piores de sua vida, Gustavo sabe muito bem o que aconteceu.


May Parreira e Ferreira ( Brasil ), menção honrosa, modalidade conto.


Regulamento 2006




1. INTRODUÇÃO
O Prémio Litterarius é uma iniciativa anual do RACAL Clube.

2. OBJECTIVOS
O presente Prémio tem por objectivos incentivar a produção artística de originais e, principalmente, valorizar a Língua Portuguesa.

3. CONCORRENTES
Poderão concorrer cidadãos dos países cuja língua oficial seja o português, só sendo admitidas obras inéditas, num máximo de três trabalhos por concorrente.

4. TEMA
. Livre

5. MODALIDADES
. Poesia ( entre 5 a 10 páginas – com um só poema ou vários poemas.
Quando for apresentada uma colectânea esta deve ter um título )
. Banda Desenhada ( máximo 4 pranchas )
. Conto ( máximo 6 páginas )

6. APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS
As obras apresentadas sob pseudónimo, deverão ser individuais e redigidas em páginas A4, processadas em Word, fonte Times New Roman ou Arial, tamanho 12, a espaço 1,5.
No acto de candidatura, sob pena de exclusão, não serão aceites mais do que uma obra em quintuplicado, por envelope fechado, tendo no exterior apenas o pseudónimo. O envelope que contém o trabalho concorrente, será acompanhado de um segundo envelope, igualmente fechado, que conterá dentro a ficha de identificação retirada do Regulamento. No exterior indicará o pseudónimo, a modalidade e o título da obra.
Ambos os envelopes serão metidos num terceiro que será enviado, sem indicação do remetente, ao Prémio Litterarius, para o endereço indicado no Regulamento.
Serão entregues/enviadas 5 cópias de cada obra.

7. PRAZO
O prazo de entrega dos originais inicia-se no dia 1 de Fevereiro e termina às 17h30 do dia 15 de Março de 2006. Poderão ser entregues pessoalmente e/ou enviados por correio, devendo o carimbo dos CTT ter como data limite a última, acima estipulada.

Em qualquer dos casos deverá constar no envelope:
PRÉMIO LITTERARIUS
RACAL Clube
Rua Cândido dos Reis, nº 38
8300 SILVES

A Direcção do Prémio Litterarius tornará públicos os resultados nos Órgãos da Comunicação Social, e, atempadamente, informará, por escrito, os Concorrentes premiados.

A cerimónia solene de entrega de prémios decorrerá no dia 27 de Maio de 2006, segundo programa a designar.

8. COMPOSIÇÃO DO JÚRI
O Júri será composto por 5 elementos de reconhecido mérito e idoneidade.
As reuniões são secretas, deliberando em plena independência e liberdade de critérios, sendo as declarações de voto registadas em acta.
As decisões são tomadas por unanimidade e/ou maioria.

9. PROPRIEDADE
Todos as obras, apresentadas a concurso e não premiadas, deverão ser levantadas até ao dia 31 de Dezembro do ano em curso, ou solicitado o seu envio contra-reembolso, ao Prémio Litterarius, RACAL Clube.
Se o Júri assim o entender, os trabalhos entregues, premiados ou não, poderão ser publicados.
Os Concorrentes serão previamente contactados para darem essa autorização.
Os Concorrentes, assim como os Autores premiados, comprometem-se à aceitação do presente Regulamento e cedem os direitos de propriedade e publicação ao Prémio Litterarius, RACAL Clube.

10. PRÉMIOS

1º - 500€ e publicação on-line e/ou em suporte de papel

Nota - O Júri reserva-se, no entanto, o direito de atribuir uma ou duas menções honrosas.

11. DAS DECISÕES
Qualquer lacuna deste Regulamento será resolvida pelo Júri do Prémio Litterarius cujo(a) presidente terá sempre voto de qualidade.
A Direcção, através do(a) seu(ua) presidente, terá assento na reunião, e o seu voto terá carácter vinculativo.
Das decisões não haverá recurso.

12. PEDIDOS DE INFORMAÇÕES:
Prémio Litterarius
RACAL Clube
Rua Cândido dos Reis, nº 38
8300 SILVES
Tel. 282442587
Fax. 282445818
E-mails - racal.clube@racal-clube.pt
premio_litterarius@sapo.pt


Deixámos 2005, com um sorriso de boa disposição...






Jantar de Encerramento do Prémio Litterarius em 2005.
Duas gerações - Maria das Dores de Góis e Marisa Morais,
o virar de mais uma página.
Hotel Colina dos Mouros, Silves.



Encerramento do Prémio Litterarius 2005






Carlos Joaquim Fagundes e Mulher,
1º Prémio ex-aequo, na modalidade conto.
Hotel Colina dos Mouros, Silves.



Curumim Guriatã




- Saia já daqui e não me aborreça!
Estava cansado de ouvir aqueles gritos, voltaria para a sua gente. Afinal de contas, porque o trouxera para aquela casa? Por que não o deixava ir de uma vez, se a sua presença o incomodava tanto?
Enquanto formulava essas questões, encontrou um lugar para se esconder no galpão de ferramentas, bem atrás daquele velho trator quebrado e abandonado no canto da parede.
Queria passar algumas horas sozinho longe daquele homem, a quem ele odiava tanto.
Precisava de pensar em uma maneira de fugir sem deixar rastro, para que o fazendeiro nunca mais pudesse encontrá-lo. Tentara fugir outras vezes, porém fora intempestivo, deixara-se levar pela raiva do momento e desandara a correr pela estrada, sem nada levar, logo sendo alcançado por alguns empregados e trazido de volta, mas, dessa vez, tudo seria diferente, fugiria à noite, levaria suprimentos, além de uma muda de roupa. E seria hoje, não havia motivos para esperar, iria embora.
Deixou-se ficar por horas no quarto das ferramentas, maquinando sua fuga com riqueza de detalhes. Sabia muito bem que rumo tomar, conhecia o horário dos ônibus e os seus destinos. O perigo estava no fato de que, naquele fim de mundo, os ônibus serem velhos, quebravam-se, na maioria das vezes, bem no meio das viagens, causando os maiores contratempos para os seus passageiros. Chegou a imaginar planos alternativos, caso algo viesse a dar errado. Pois uma fuga fracassada poderia lhe custar muito caro. Já fora avisado disso:
- Você, que não se meta a besta de fugir de novo! Porque se te pego, te dou uma surra sem tamanho e de cinturão, te deixo em carne viva! Índio mal agradecido!
Sabia que corria o risco de levar aquela surra tão prometida, porém, mais do que a promessa da surra, o que o machucava era a ingratidão do fazendeiro. Sempre fizera tudo que estivera ao seu alcance para agradá-lo, mesmo assim, os seus esforços nunca foram reconhecidos. Naquele momento, a única coisa que sentia era desejo de vingança. Depois de tudo o que passara, por que sairia da vida daquele fazendeiro assim, sem lhe deixar uma amarga recordação? Iria vingar-se do seu raptor, daquela prisão, dos desaforos e principalmente da ausência de carinho. E sabia como atingi-lo. Seria através do que ele mais gostava, do que ele mais prezava, de uma das razões da sua vida : seus pássaros.
Não, não abriria as grades do aviário, mesmo porque, não seria o bastante. O fazendeiro possuía dinheiro suficiente para recuperá-las, além do que, o projeto era muito arriscado, o barulho da fuga das aves chamaria a atenção de todos…. Não….faria diferente… O fazendeiro era um grande coleccionador de aves, acreditava possuir exemplares de todas as espécies canoras registradas no mundo pelos especialistas… Sim … sabia como se vingar.
Já era fim de tarde, quando resolveu dar o ar de sua graça, lá pelos lados da sede da fazenda. O fazendeiro estava sentado na varanda e fez de conta que não tinha percebido sua chegada.
- Eu queria contar uma novidade.
- Por onde você andou o dia todo? Já ia mandar o Tião atrás de você.
- Eu tava por aí e vi uma coisa…
- Já comeu? Pois, se não comeu, trate de comer que o alazão está esperando alguém para escovar seu pêlo.
- Não quer saber o que eu vi no meio da mata?
- E o que foi?
- Eu ouvi um guriatã cantando!
- E que diacho é um guriatã?!
- E o senhor num sabe ?! o Guriatã é uma ave muito rara e cantadora que se esconde na mata e que quem prender uma, garante a chegada de uma riqueza que nunca esperou ter na vida?
- Deixa de besteira! Que nunca ouvi falar nesse tal passarinho. Você tá é inventando!
- Tá bom! Se o senhor num quer um guriatã nas suas gaiolas, eu num falo mais. Tô indo escovar alazão.
- Vem cá seu capeta! Onde foi que você viu?
- lá prós lados do ribeirão, bem no meio da mata.
- Vamos lá! Que eu quero ouvir esse passarinho tão raro. Mas se for brincadeira sua… Você hoje se ajeita!
Atravessaram a fazenda em direcção ao ribeirão, entraram na mata e o curumim foi apontando o caminho que dizia ter percorrido durante a manhã.
- E o que veio fazer aqui?
- Vim para longe, o senhor me disse que queria bem longe.
- Diacho! E precisava vir pro meio dessa mata, você não tem medo de onça?
- E se ia perder alguma coisa, se uma onça me pegasse?
Naquele momento o fazendeiro parou.
- Vou ficar por aqui estou cansado.
- Se quiser, eu vou na frente pra ver se acho o passarinho.
- Eu acho melhor, não. Lá pra dentro a mata é muito perigosa para um menino.
- Mas, eu não sou apenas um menino, sou um índio.
- Eu sei que você é um índio.
O fazendeiro baixou a cabeça e começou a afastar com a ponta de um galho seco o pensamento e o formigueiro que estavam à sua frente e ainda sem levantar a cabeça, ordenou que o curumim prosseguisse sozinho.
Os minutos se passaram e o fazendeiro começou a ficar apreensivo com a demora do indiozinho. Resolveu ir atrás daquele endiabrado, seguindo as pegadas deixadas por ele, mas de repente as perdeu de vista e não soube que direção tomar. Então gritou, esperando ouvir uma resposta do curumim e em vez disso ouviu um canto mavioso que vinha do meio da mata. Era sem dúvida o canto mais perfeito de pássaro que já ouvira. Contudo, não conseguia distinguir que ave era aquela, tinha quase absoluta certeza de que nunca ouvira um canto igual aquele em toda a sua vida. O fazendeiro sentou-se em uma pedra, deixando-se envolver por aquela melodia. Passados alguns minutos o canto cessou e lá no fundo da mata reapareceu o curumim:
- O senhor ouviu, patrão?!
- Sim você tinha razão. Nunca ouvi, em toda a minha vida, canto tão belo e ao mesmo tempo tão triste – parece um canto de despedida – Você não acha?
O nosso curumim não respondeu nada.
- Sabe uma coisa? Eu quero essa ave para mim e você vai-me ajudar a capturá-la, afinal de contas, você foi o único que o viu. Vamos voltar pra sede e preparar tudo para amanhã bem cedo. Já que hoje não dá mais tempo.
Rumaram silenciosos para a casa. O fazendeiro pela necessidade de tentar reproduzir em seu cérebro aquele canto; nosso curumim decepcionado com os rumos da sua vingança.
- E essa agora! Como vou fugir essa noite com essa invenção de caçar passarinho?... Mas …. pensando bem, vai acabar sendo mais divertido do que imaginei, e de qualquer forma, posso deixar pra depois dessa busca a minha partida.
O resto do dia foi gasto com os preparativos para a grande captura. Na fazenda, estavam todos inquietos com a novidade. Alguns vaqueiros, no entanto, duvidaram da existência de uma ave tão rara como aquela, vivendo por ali. Principalmente, pelo fato de conhecerem aquelas paragens há muito tempo e de não terem ouvido nenhuma conversa até então sobre aquela história. Outros, por sua vez, confirmavam a versão do curumim, mesmo estando a pouco tempo na região. Diziam ter conhecimento da velha lenda sobre o Guriatã, de outras paragens por onde passaram. Depositando, assim, todas as suas crenças na existência de tal ave canora, capaz de tornar venturoso o homem que a possuísse. E pra finalizar, ainda ouviram a versão de um último vaqueiro: Tião que pretensioso que já havia visto ao longe tal pássaro, em seus tempos de menino.
O nosso curumim, sentado num dos bancos da varanda, divertia-se com tudo aquilo e estava satisfeito por tornar-se, pela primeira vez, alvo de tantas atenções daqueles adultos, que até então, nunca haviam dado conta da sua existência entre eles. Tratavam-no como um fedelho, um fedelho índio, que os atrapalhava mais do que ajudava. E toda aquela prosa fez com que aqueles homens se deitassem tarde. Mesmo assim, logo cedo, desfizeram-se dos primeiros compromissos da manhã, desejosos que estavam em participar da captura. Mas a propriedade não podia parar suas actividades. O patrão escolheu, então, cinco homens e mais o curumim e partiu para a mata. Acreditando estar de volta na hora do almoço, Já com o seu Guriatã engaiolado.
As coisas acabaram não sendo tão fáceis como o grupo esperava, caminharam durante horas sem ao menos ouvir uma única nota daquele canto tão esperado. O sol já estava alto, quando o fazendeiro resolveu enviar alguns dos seus homens de volta à sede atrás de suprimentos e de material para acamparem aquela noite na mata. Se necessário fosse, passaria até dias, mas só voltaria depois de capturar o seu Guriatã. A essas alturas, o curumim andava arrependido de sua vingança, sabia que o Guriatã não voltaria a aparecer, ou melhor, que seria muito perigoso se aquela ave voltasse a cantar. Por outro lado, sem a ave nas mãos do fazendeiro, como faria para fugir? Sem falar que o fazendeiro andava agora vigiando-o bem mais do que antes. Teve então uma ideia. Precisava contar apenas com um pouco de sorte para colocá-la em prática. A oportunidade surgiu, logo depois do almoço, quando todos deitaram-se para tirar uma soneca e acabaram acordando com o canto do Guriatã.
-O senhor tinha razão, patrãozinho! É lindo mesmo! Dá é gosto de ouvir essa formosura!
- Cadê curumim?
- Disse que ia no ribeirão encher cantis.
- E ainda não voltou?
- Olha aí vem ele, patrão!
- Você ouviu curumim?!
- Ouvi, sim senhor, e vi também, mas não gostei do que vi.
- O que foi que você viu? - perguntou o fazendeiro aflito.
- O Guriatã tava destruindo o seu ninho e voando em torno de umas árvores mais altas, ali, do lado daquela colina.
- E o que isso quer dizer?
- Que o Guriatã tá partindo, tá indo embora, tá perdido para sempre… ele não volta a morar no mesmo lugar duas vezes…
- Então só me resta uma coisa a fazer: segui-lo. Nem que seja até o fim do mundo! Só descanso quando tiver essa ave em minhas mãos. Vamos! Peguem tudo! Vamos voltar para a sede e preparar uma comitiva: Parto hoje mesmo se for possível!
O curumim estava boquiaberto com o que ouviu do fazendeiro, seu plano dera errado, ele estava mais prisioneiro do que nunca daquela história. E agora não sabia mais o que fazer para se livrar daquela enrascada. Ainda chegou a ter esperanças de que o fazendeiro no meio daquela confusão, de todos aqueles preparativos, pudesse esquecê-lo, mas o pior aconteceu:
- Então, indiozinho, já preparou a sua trouxa?
- Eu?!
- Claro ou tem outro índio que conheça o Guriatã?
Saíram em comitiva apenas na manhã seguinte, os preparativos foram muitos. Mais até do que o fazendeiro supunha a princípio, pois, sem fazer ideia de quanto tempo demoraria naquela viagem, era necessário deixar decisões importantes tomadas, antes de partir, já que não desejava ter surpresas desagradáveis na volta. Seguiram rumo ao norte, o curumim ia à frente da comitiva mostrando o caminho. Passaram semanas longe da fazenda e para desespero de todos, nada viram, nem ouviram de tal ave. O curumim acreditava, agora, que faltava pouco para o patrão desistir e regressar para a fazenda, mas os dias passavam e ele se surpreendia com a posição do fazendeiro, que continuava decidido a não retornar, enquanto não capturasse o seu Guriatã. Aos poucos, os recursos que haviam trazido, foram rareando e já era necessário realizar paradas mais longas em pequenas vilas e cidades para abastecerem-se.
Alguns homens se cansaram daquela busca inútil e preferiram pedir demissão a ter que continuar, outros estavam com saudades de família e pediram para serem substituídos por vaqueiros solteiros. Só o fazendeiro parecia não se cansar. Mesmo os meses substituindo as semanas, a comitiva não retornou. Porém, a partir daqui, não a chamaremos mais de comitiva, já que nos restam apenas dois integrantes: o curumim e o fazendeiro, que sozinhos continuaram a procurar o Guriatã, o qual insistia em não dar nenhum sinal de vida.
Enquanto isso, na sua região, todos que conheciam o fazendeiro, diziam que ele tinha enlouquecido. Não havia outra explicação para aquele fato, ter tido a coragem de deixar tudo de lado para correr o mundo atrás de uma ave. Os anos se passaram e o curumim já não era mais uma criança. Tornara-se um rapaz forte e o melhor amigo do fazendeiro, juntos e sozinhos, continuavam a percorrer o mundo em busca do Guriatã. Estavam muito longe de casa, quando o fazendeiro recebeu a notícia de que os negócios não iam bem, sua presença na fazenda se fazia indispensável para o futuro de sua fortuna. Já que o administrador que deixara incumbido de tomar conta de tudo, não estava se saindo bem. Apreensivo, o fazendeiro contou ao ex-curumim o que estava acontecendo e anunciou a sua decisão de voltar à fazenda: mas antes, queria saber, o que ele desejava fazer. O ex-curumim baixou a cabeça e disse que preferia continuar na busca do Guriatã e que só quando o encontrasse regressaria para a fazenda.
- Está bem! Fique com essa quantia para as suas despesas. Quando o dinheiro acabar, me telefone, basta que diga onde está , que eu mando depositar nova quantia.
- Não vai ser necessário.
- Eu faço questão, de qualquer forma, você vai estar trabalhando pra mim. Mas se quiser voltar para a fazenda… se ficar cansado dessa procura, não pense duas vezes: volte.
Após a conversa, mais três anos transcorreram e o ex-curumim acabou por fim regressando à fazenda. Depois, de ter sido avisado do grave estado de saúde, no qual se encontrava o fazendeiro. Ao entrar no quarto, daquele que passou a ver como um amigo, percebeu como aqueles três últimos anos o haviam envelhecido e o ex-curumim sentiu-se ainda mais arrependido de ter planejado aquela sua vingança um dia. Vingança, que para ele, há muito perdera o sentido. E por medo de perder a amizade do fazendeiro, não contou toda a verdade.
- Então, garoto, achou nossa ave canora?
- Patrão, é sobre aquela ave… eu preciso contar uma coisa… a ave…
- Fale, Guriatã!
- Como disse? O senhor já sabia?!
- Sabia.
- Mas … dês-de – quan-do?!
- Eu sempre soube… desde a primeira vez que ouvi o seu canto … e entendi o que você me queria dizer… e sei como você se está sentindo agora… eu também já deixei de fazer muitas coisas nessa vida das quais me arrependo… mas fiz algumas, que valeram a pena … fiz você.. te trouxe da aldeia depois da morte da tua mãe e tive coragem de partir ainda uma segunda vez, quando percebi que podia te perder para sempre… e durante todos aqueles anos que passamos juntos cheguei a acreditar, algumas vezes, que havia conseguido capturar o meu Guriatã…
- Canta pra mim , Guriatã?!
O triste canto do Guriatã foi ouvido naquele fim de tarde, como há oito anos atrás e como daquela primeira vez, o canto anunciava uma despedida.
Cinthya Tavares de Almeida Albuquerque ( Brasil ), 1º Prémio ex-aequo, na modalidade conto.



Acta da Reunião do Júri, 2005







Em 19 de Novembro de 2005.



O melão





Franzino, escanzelado, rosto macilento e olhos esbugalhados, o Aires aparecia nas aulas com o garnacho descoberto, mas muito encouchado e retraído, consubstanciando simultaneamente a rusticidade e negligência. Vestia desajeitadamente umas roupas de aspecto decrépito e com um estado de conservação notoriamente deteriorado, a que se juntava uma assumida falta de limpeza.
O seu rosto, agongorado e cenhoso , expressava um alheamento permanente e global a pessoas e ensinamentos. Os olhos, absortos e perplexos, emperravam todo e qualquer conhecimento e obstruíam notoriamente a capacidade de atingir objectivos. A sua mente vagueava por um universo abstruso, incoerente e quase irracional. Devaneava com frequência, distraía-se vezes sem conta e desvairava continuadamente. Em suma – O Aires não aprendia rigorosamente nada.
Consequência de tudo isto: na pauta, afixada trimestralmente nos placares da escola, ao nome do Aires seguia-se uma enxurrada de negativas em todas as disciplinas, excepto em Religião e Moral onde, mais por benevolência do professor do que por mérito do aluno, aparecia bem escarrapachado um três. Mas não ficavam por aqui os malefícios da presumivelmente assumida não aprendizagem do Aires. Os professores passavam horas e horas a discutir, a analisar e a transcrever para a acta as dificuldades do rapaz e a inventar propostas para as superar, atrasando significativamente as reuniões de avaliação e a directora de Turma, jovem e pouco experiente, via-se e desejava-se para explicar aos pais o mais – que – evidente insucesso do garoto. A própria psicóloga já fora chamada, vezes sem conta, a intervir em tentativas infrutíferas de analisar e compreender tão grave e sério embargo a todo e qualquer tipo de cerebração.
Certo dia, na aula de Ciências, a professora alheando-se um pouco dos conteúdos programáticos, resolveu falar sobre as cucurbitáceas:
- São plantas dicotiledóneas e gamopétalas como a abóbora, a chila, a melancia e o melão – explicou a professora.
Milagre! Enquanto a restante parte da turma se distraia cuidando que aquilo das cucurbitáceas era mais um dos devaneios científicos da professora e que tal matéria nunca iria sair nos testes, o Aires, sobretudo ao ouvir a palavra “melão”, vai disto, resolve concentrar todas as forças até então perdidas e dispersas no que a professora explicava. Esta, incrédula perante tamanha reviravolta do molengão, procurando uma linguagem mais simples, continuou:
- Vocês conhecem muito bem o melão e a melancia e de certo quase todos já os comeram e apreciaram as suas propriedades refrescantes.
O Aires não pestanejava e, qual abelha a sugar o néctar duma flor, bebia-lhes as palavras de uma a uma. A professora insistia:
- O melão é mesmo um fruto bem português, - os olhos do Aires esbugalharam por completo – cultivando-se em grande quantidade aqui na nossa região. O melão possui propriedades que o tornam, além de saboroso, um excelente auxiliar do funcionamento do corpo humano, pois é uma fonte abundante de fibras e possui grandes quantidades de vitamina A, C e do complexo B. Além disso, é rico em cálcio, fósforo, ferro, potássio, cobre e enxofre e não tem consequências
negativas, já que por cada cem gramas de melão ingerimos aproximadamente trinta calorias. O seu alto valor em potássio torna o melão indicado para doentes cardíacos e para pessoas com afecções do fígado. É igualmente recomendado na prevenção e no tratamento da gota, reumatismo e prisão de ventre. Mas, atenção, se ingerido em excesso pode causar cólicas e diarreia.
O Aires estava extenuante e a professora perplexa, por sentir que aquela alma penada pela primeira vez se concentrava e interessava por alguma coisa, sem contudo encontrar uma explicação plausível.
Mas como estava ali para ensinar e o rapaz mostrara grande interesse, no fim do ano não se fartou de partilhar com os colegas o que presenciara naquela aula, manifestando sérias tentativas de o passar. Foram, contudo, improfícuos os seus esforços, esbarrando ingloriamente com a pertinácia dos colegas. Então ia lá passar-se um abantesma daqueles, que afinal dava erros em catadupa, lia mal que se fartava, não dava uma prá caixa em Matemática, não percebia patavina de História e nem sequer sabia distinguir uma colcheia de uma semifusa?
E o Aires reprovou mesmo.
Algum tempo depois, ao passar na recta de Sequeiros, parei para comprar um melão a um dos vendedores que por ali proliferam nos meses de Verão. Qual não foi o meu espanto quando me apercebi que o vendedor, onde casualmente havia parado, era o Aires. Qual Paxá rodeado de donzelas no seu harém, o Aires, sentado em cima de um cesto com a boca para o chão e o fundo para cima, tinha à sua volta dezenas e dezenas de melões de várias espécies, cores, tamanhos e feitios, a que se misturavam algumas melancias. Com invulgar perícia e robusta confiança aconselhava os clientes, escolhia-lhes os melões, convencia-os a comprar, mostrando ainda grande destreza e agilidade nas operações matemáticas inerentes a cada troca comercial. Quando chegou a minha vez, o rosto vermelhou-se ainda mais, revelando um misto de timidez, alegria e confiança. Com cerimónia interrogou-me:
- O setor também quer comprar um melão?
Como se acenasse positivamente, acrescentou com enorme empolgamento e invulgar entusiasmo:
- Pó setor vou escolher o melhor. O setor vai comer um melão como nunca comeu.
Ai vai, vai!
Batuca daqui, sacode dali, cheira dacolá, apalpa e volta a apalpar as extremidades do curcurbitáceo. Por fim com os olhos repletos de júbilo e o rosto excessivamente aprazerado, concluiu:
- Este, setor, este! Pode levar! Este é de confiança. Este é mesmo bom!
Conversei um pouco mais, paguei, regressei a casa e deliciei-me com o melão – o melhor melão que comi em toda a minha vida.
Foi então que dei comigo a pensar: se aos professores, entre os quais eu obviamente me incluía, que haviam reprovado o parrana do Aires por não saber Português, Matemática, História ou até ler o solfejo, alguém decidisse ensinar como se escolhe um melão, nunca haviam de aprender a fazê-lo com a perícia, a sabedoria e a competência do Aires.



Carlos Joaquim Fagundes ( Portugal ), 1º prémio ex-aequo, na modalidade conto.



Prémio Litterarius © 2006-7-8
adaptado por gabriela rocha martins