- Saia já daqui e não me aborreça!
Estava cansado de ouvir aqueles gritos, voltaria para a sua gente. Afinal de contas, porque o trouxera para aquela casa? Por que não o deixava ir de uma vez, se a sua presença o incomodava tanto?
Enquanto formulava essas questões, encontrou um lugar para se esconder no galpão de ferramentas, bem atrás daquele velho trator quebrado e abandonado no canto da parede.
Queria passar algumas horas sozinho longe daquele homem, a quem ele odiava tanto.
Precisava de pensar em uma maneira de fugir sem deixar rastro, para que o fazendeiro nunca mais pudesse encontrá-lo. Tentara fugir outras vezes, porém fora intempestivo, deixara-se levar pela raiva do momento e desandara a correr pela estrada, sem nada levar, logo sendo alcançado por alguns empregados e trazido de volta, mas, dessa vez, tudo seria diferente, fugiria à noite, levaria suprimentos, além de uma muda de roupa. E seria hoje, não havia motivos para esperar, iria embora.
Deixou-se ficar por horas no quarto das ferramentas, maquinando sua fuga com riqueza de detalhes. Sabia muito bem que rumo tomar, conhecia o horário dos ônibus e os seus destinos. O perigo estava no fato de que, naquele fim de mundo, os ônibus serem velhos, quebravam-se, na maioria das vezes, bem no meio das viagens, causando os maiores contratempos para os seus passageiros. Chegou a imaginar planos alternativos, caso algo viesse a dar errado. Pois uma fuga fracassada poderia lhe custar muito caro. Já fora avisado disso:
- Você, que não se meta a besta de fugir de novo! Porque se te pego, te dou uma surra sem tamanho e de cinturão, te deixo em carne viva! Índio mal agradecido!
Sabia que corria o risco de levar aquela surra tão prometida, porém, mais do que a promessa da surra, o que o machucava era a ingratidão do fazendeiro. Sempre fizera tudo que estivera ao seu alcance para agradá-lo, mesmo assim, os seus esforços nunca foram reconhecidos. Naquele momento, a única coisa que sentia era desejo de vingança. Depois de tudo o que passara, por que sairia da vida daquele fazendeiro assim, sem lhe deixar uma amarga recordação? Iria vingar-se do seu raptor, daquela prisão, dos desaforos e principalmente da ausência de carinho. E sabia como atingi-lo. Seria através do que ele mais gostava, do que ele mais prezava, de uma das razões da sua vida : seus pássaros.
Não, não abriria as grades do aviário, mesmo porque, não seria o bastante. O fazendeiro possuía dinheiro suficiente para recuperá-las, além do que, o projeto era muito arriscado, o barulho da fuga das aves chamaria a atenção de todos…. Não….faria diferente… O fazendeiro era um grande coleccionador de aves, acreditava possuir exemplares de todas as espécies canoras registradas no mundo pelos especialistas… Sim … sabia como se vingar.
Já era fim de tarde, quando resolveu dar o ar de sua graça, lá pelos lados da sede da fazenda. O fazendeiro estava sentado na varanda e fez de conta que não tinha percebido sua chegada.
- Eu queria contar uma novidade.
- Por onde você andou o dia todo? Já ia mandar o Tião atrás de você.
- Eu tava por aí e vi uma coisa…
- Já comeu? Pois, se não comeu, trate de comer que o alazão está esperando alguém para escovar seu pêlo.
- Não quer saber o que eu vi no meio da mata?
- E o que foi?
- Eu ouvi um guriatã cantando!
- E que diacho é um guriatã?!
- E o senhor num sabe ?! o Guriatã é uma ave muito rara e cantadora que se esconde na mata e que quem prender uma, garante a chegada de uma riqueza que nunca esperou ter na vida?
- Deixa de besteira! Que nunca ouvi falar nesse tal passarinho. Você tá é inventando!
- Tá bom! Se o senhor num quer um guriatã nas suas gaiolas, eu num falo mais. Tô indo escovar alazão.
- Vem cá seu capeta! Onde foi que você viu?
- lá prós lados do ribeirão, bem no meio da mata.
- Vamos lá! Que eu quero ouvir esse passarinho tão raro. Mas se for brincadeira sua… Você hoje se ajeita!
Atravessaram a fazenda em direcção ao ribeirão, entraram na mata e o curumim foi apontando o caminho que dizia ter percorrido durante a manhã.
- E o que veio fazer aqui?
- Vim para longe, o senhor me disse que queria bem longe.
- Diacho! E precisava vir pro meio dessa mata, você não tem medo de onça?
- E se ia perder alguma coisa, se uma onça me pegasse?
Naquele momento o fazendeiro parou.
- Vou ficar por aqui estou cansado.
- Se quiser, eu vou na frente pra ver se acho o passarinho.
- Eu acho melhor, não. Lá pra dentro a mata é muito perigosa para um menino.
- Mas, eu não sou apenas um menino, sou um índio.
- Eu sei que você é um índio.
O fazendeiro baixou a cabeça e começou a afastar com a ponta de um galho seco o pensamento e o formigueiro que estavam à sua frente e ainda sem levantar a cabeça, ordenou que o curumim prosseguisse sozinho.
Os minutos se passaram e o fazendeiro começou a ficar apreensivo com a demora do indiozinho. Resolveu ir atrás daquele endiabrado, seguindo as pegadas deixadas por ele, mas de repente as perdeu de vista e não soube que direção tomar. Então gritou, esperando ouvir uma resposta do curumim e em vez disso ouviu um canto mavioso que vinha do meio da mata. Era sem dúvida o canto mais perfeito de pássaro que já ouvira. Contudo, não conseguia distinguir que ave era aquela, tinha quase absoluta certeza de que nunca ouvira um canto igual aquele em toda a sua vida. O fazendeiro sentou-se em uma pedra, deixando-se envolver por aquela melodia. Passados alguns minutos o canto cessou e lá no fundo da mata reapareceu o curumim:
- O senhor ouviu, patrão?!
- Sim você tinha razão. Nunca ouvi, em toda a minha vida, canto tão belo e ao mesmo tempo tão triste – parece um canto de despedida – Você não acha?
O nosso curumim não respondeu nada.
- Sabe uma coisa? Eu quero essa ave para mim e você vai-me ajudar a capturá-la, afinal de contas, você foi o único que o viu. Vamos voltar pra sede e preparar tudo para amanhã bem cedo. Já que hoje não dá mais tempo.
Rumaram silenciosos para a casa. O fazendeiro pela necessidade de tentar reproduzir em seu cérebro aquele canto; nosso curumim decepcionado com os rumos da sua vingança.
- E essa agora! Como vou fugir essa noite com essa invenção de caçar passarinho?... Mas …. pensando bem, vai acabar sendo mais divertido do que imaginei, e de qualquer forma, posso deixar pra depois dessa busca a minha partida.
O resto do dia foi gasto com os preparativos para a grande captura. Na fazenda, estavam todos inquietos com a novidade. Alguns vaqueiros, no entanto, duvidaram da existência de uma ave tão rara como aquela, vivendo por ali. Principalmente, pelo fato de conhecerem aquelas paragens há muito tempo e de não terem ouvido nenhuma conversa até então sobre aquela história. Outros, por sua vez, confirmavam a versão do curumim, mesmo estando a pouco tempo na região. Diziam ter conhecimento da velha lenda sobre o Guriatã, de outras paragens por onde passaram. Depositando, assim, todas as suas crenças na existência de tal ave canora, capaz de tornar venturoso o homem que a possuísse. E pra finalizar, ainda ouviram a versão de um último vaqueiro: Tião que pretensioso que já havia visto ao longe tal pássaro, em seus tempos de menino.
O nosso curumim, sentado num dos bancos da varanda, divertia-se com tudo aquilo e estava satisfeito por tornar-se, pela primeira vez, alvo de tantas atenções daqueles adultos, que até então, nunca haviam dado conta da sua existência entre eles. Tratavam-no como um fedelho, um fedelho índio, que os atrapalhava mais do que ajudava. E toda aquela prosa fez com que aqueles homens se deitassem tarde. Mesmo assim, logo cedo, desfizeram-se dos primeiros compromissos da manhã, desejosos que estavam em participar da captura. Mas a propriedade não podia parar suas actividades. O patrão escolheu, então, cinco homens e mais o curumim e partiu para a mata. Acreditando estar de volta na hora do almoço, Já com o seu Guriatã engaiolado.
As coisas acabaram não sendo tão fáceis como o grupo esperava, caminharam durante horas sem ao menos ouvir uma única nota daquele canto tão esperado. O sol já estava alto, quando o fazendeiro resolveu enviar alguns dos seus homens de volta à sede atrás de suprimentos e de material para acamparem aquela noite na mata. Se necessário fosse, passaria até dias, mas só voltaria depois de capturar o seu Guriatã. A essas alturas, o curumim andava arrependido de sua vingança, sabia que o Guriatã não voltaria a aparecer, ou melhor, que seria muito perigoso se aquela ave voltasse a cantar. Por outro lado, sem a ave nas mãos do fazendeiro, como faria para fugir? Sem falar que o fazendeiro andava agora vigiando-o bem mais do que antes. Teve então uma ideia. Precisava contar apenas com um pouco de sorte para colocá-la em prática. A oportunidade surgiu, logo depois do almoço, quando todos deitaram-se para tirar uma soneca e acabaram acordando com o canto do Guriatã.
-O senhor tinha razão, patrãozinho! É lindo mesmo! Dá é gosto de ouvir essa formosura!
- Cadê curumim?
- Disse que ia no ribeirão encher cantis.
- E ainda não voltou?
- Olha aí vem ele, patrão!
- Você ouviu curumim?!
- Ouvi, sim senhor, e vi também, mas não gostei do que vi.
- O que foi que você viu? - perguntou o fazendeiro aflito.
- O Guriatã tava destruindo o seu ninho e voando em torno de umas árvores mais altas, ali, do lado daquela colina.
- E o que isso quer dizer?
- Que o Guriatã tá partindo, tá indo embora, tá perdido para sempre… ele não volta a morar no mesmo lugar duas vezes…
- Então só me resta uma coisa a fazer: segui-lo. Nem que seja até o fim do mundo! Só descanso quando tiver essa ave em minhas mãos. Vamos! Peguem tudo! Vamos voltar para a sede e preparar uma comitiva: Parto hoje mesmo se for possível!
O curumim estava boquiaberto com o que ouviu do fazendeiro, seu plano dera errado, ele estava mais prisioneiro do que nunca daquela história. E agora não sabia mais o que fazer para se livrar daquela enrascada. Ainda chegou a ter esperanças de que o fazendeiro no meio daquela confusão, de todos aqueles preparativos, pudesse esquecê-lo, mas o pior aconteceu:
- Então, indiozinho, já preparou a sua trouxa?
- Eu?!
- Claro ou tem outro índio que conheça o Guriatã?
Saíram em comitiva apenas na manhã seguinte, os preparativos foram muitos. Mais até do que o fazendeiro supunha a princípio, pois, sem fazer ideia de quanto tempo demoraria naquela viagem, era necessário deixar decisões importantes tomadas, antes de partir, já que não desejava ter surpresas desagradáveis na volta. Seguiram rumo ao norte, o curumim ia à frente da comitiva mostrando o caminho. Passaram semanas longe da fazenda e para desespero de todos, nada viram, nem ouviram de tal ave. O curumim acreditava, agora, que faltava pouco para o patrão desistir e regressar para a fazenda, mas os dias passavam e ele se surpreendia com a posição do fazendeiro, que continuava decidido a não retornar, enquanto não capturasse o seu Guriatã. Aos poucos, os recursos que haviam trazido, foram rareando e já era necessário realizar paradas mais longas em pequenas vilas e cidades para abastecerem-se.
Alguns homens se cansaram daquela busca inútil e preferiram pedir demissão a ter que continuar, outros estavam com saudades de família e pediram para serem substituídos por vaqueiros solteiros. Só o fazendeiro parecia não se cansar. Mesmo os meses substituindo as semanas, a comitiva não retornou. Porém, a partir daqui, não a chamaremos mais de comitiva, já que nos restam apenas dois integrantes: o curumim e o fazendeiro, que sozinhos continuaram a procurar o Guriatã, o qual insistia em não dar nenhum sinal de vida.
Enquanto isso, na sua região, todos que conheciam o fazendeiro, diziam que ele tinha enlouquecido. Não havia outra explicação para aquele fato, ter tido a coragem de deixar tudo de lado para correr o mundo atrás de uma ave. Os anos se passaram e o curumim já não era mais uma criança. Tornara-se um rapaz forte e o melhor amigo do fazendeiro, juntos e sozinhos, continuavam a percorrer o mundo em busca do Guriatã. Estavam muito longe de casa, quando o fazendeiro recebeu a notícia de que os negócios não iam bem, sua presença na fazenda se fazia indispensável para o futuro de sua fortuna. Já que o administrador que deixara incumbido de tomar conta de tudo, não estava se saindo bem. Apreensivo, o fazendeiro contou ao ex-curumim o que estava acontecendo e anunciou a sua decisão de voltar à fazenda: mas antes, queria saber, o que ele desejava fazer. O ex-curumim baixou a cabeça e disse que preferia continuar na busca do Guriatã e que só quando o encontrasse regressaria para a fazenda.
- Está bem! Fique com essa quantia para as suas despesas. Quando o dinheiro acabar, me telefone, basta que diga onde está , que eu mando depositar nova quantia.
- Não vai ser necessário.
- Eu faço questão, de qualquer forma, você vai estar trabalhando pra mim. Mas se quiser voltar para a fazenda… se ficar cansado dessa procura, não pense duas vezes: volte.
Após a conversa, mais três anos transcorreram e o ex-curumim acabou por fim regressando à fazenda. Depois, de ter sido avisado do grave estado de saúde, no qual se encontrava o fazendeiro. Ao entrar no quarto, daquele que passou a ver como um amigo, percebeu como aqueles três últimos anos o haviam envelhecido e o ex-curumim sentiu-se ainda mais arrependido de ter planejado aquela sua vingança um dia. Vingança, que para ele, há muito perdera o sentido. E por medo de perder a amizade do fazendeiro, não contou toda a verdade.
- Então, garoto, achou nossa ave canora?
- Patrão, é sobre aquela ave… eu preciso contar uma coisa… a ave…
- Fale, Guriatã!
- Como disse? O senhor já sabia?!
- Sabia.
- Mas … dês-de – quan-do?!
- Eu sempre soube… desde a primeira vez que ouvi o seu canto … e entendi o que você me queria dizer… e sei como você se está sentindo agora… eu também já deixei de fazer muitas coisas nessa vida das quais me arrependo… mas fiz algumas, que valeram a pena … fiz você.. te trouxe da aldeia depois da morte da tua mãe e tive coragem de partir ainda uma segunda vez, quando percebi que podia te perder para sempre… e durante todos aqueles anos que passamos juntos cheguei a acreditar, algumas vezes, que havia conseguido capturar o meu Guriatã…
- Canta pra mim , Guriatã?!
O triste canto do Guriatã foi ouvido naquele fim de tarde, como há oito anos atrás e como daquela primeira vez, o canto anunciava uma despedida.
Cinthya Tavares de Almeida Albuquerque ( Brasil ), 1º Prémio ex-aequo, na modalidade conto.